007 ou Baskerville. O prenúncio do fim do culto ao carro

 

Sean Connery ficou marcado por um grande papel no cinema. Seu 007 é um daqueles personagens que marcam época, mexem com a cultura e influenciam hábitos.

 

James Bond é viril e sedutor. Mulheres caem aos seus pés enquanto bandidos sucumbem ao seus socos. Bond atua quase sempre sozinho, mas ele está cercado de adereços. O mais marcante, claro, é o acessório número um dos espiões bem-sucedidos. Um carro.

 

Não um carro qualquer, mas um Aston Martin DB5, o suprassumo da velocidade e do design dos anos 60.

 

O filme e o personagem marcaram época e povoaram o imaginário masculino (e as nossas cidades) de carros velozes.

Mas há outro filme de Sean Connery  que me veio insistentemente à lembrança nesses dias após sua morte, O Nome da Rosa, de 1986, feito a partir de um romance de Umberto Eco.

 

Nele, Connery faz o papel de William de Baskerville, um monge franciscano que é chamado para resolver um mistério numa abadia na idade média profunda. Tanto o filme como o livro são maravilhosos, mas o que chama mais a atenção é o contraste entre os personagens.

 

Em vez de um Aston Martin, um burrico. Em vez do terno bem cortado, o hábito puído de algodão. Em vez da velocidade arrogante do detetive moderno, a humilde lentidão do monge franciscano.

 

Penso nesses personagens contrastantes, vividos pelo mesmo homem. São papéis que o mesmo ator exerceu, mas de alguma maneira, parecem ter a ver com os papéis que nós mesmos somos obrigados a ter durante nossas curtas vidas. Somos chefes, subordinados, pais, filhos, clientes, fornecedores. Eleitores, contribuintes, torcedores de um time  E motoristas, passageiros e pedestres. Em cada papel, um personagem a ser assumido. E em cada papel, um risco, o de esquecermos que por trás da multiplicidade do script público tem uma pessoa só.

 

Na rua, dirigindo um carro, corremos o risco de nos sentirmos invencíveis. Temos um Aston Martin nas mãos, com metralhadoras retráteis e estamos tentados a usá-las. O resultado é conhecido: as ruas nossas cidades são o território de batalha e as pessoas se tornam obstáculos. Mais que a vida nas calçadas, a própria vida nas cidades está ameaçada.

 

Será que não está na hora de sermos mais William e menos Bond?

 

Quando andamos a pé, como William de Baskerville, ganhamos o poder de observar com calma franciscana a cidade e encontrar pessoas em vez de ignorá-las.

 

A metáfora talvez sirva para enriquecer todos os nossos papéis.

 

Perder a vaidade, buscar a verdade do corpo, intensificar a reflexão em detrimento da ação impensada. Apreciar a constância dos próprios passos e abandonar o gozo advindo do barulho dos motores das máquinas.

 

O carro veloz foi um dos símbolos que marcou nossas cidades e nossas vidas. Porém, parece que algo anda mudando. A humildade do monge que anda em burrico ou a pé deixou de ser uma fraqueza e está se tornando um valor: a possibilidade de sentir o chão, encontrar a si mesmo, sentir cheiros e encontrar pessoas.

 

O ser humano que vai enfrentar o cotidiano desafiador das nossas cidades no futuro talvez precise  menos de um gadget motorizado e mais das virtudes do caminhante para viver uma vida plena.

 

 

 

 

 

 

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