A chuva e o caos no trânsito expõem as contradições na mobilidade de São Paulo

 

 

As chuvas dos últimos dias foram fortes. A cidade, mais uma vez parou. O dobro da média de congestionamento, interrupção de linhas de trem, fechamento do aeroporto.

 

Nas ruas, a expressão entre tensa e resignada das pessoas, espremidas nos pontos de ônibus, nas marquises, nos bares, esperando passar a chuva para seguir em frente.

 

Se, nos dias normais, as pessoas gastam em média 2 horas em deslocamentos, nos dias de como ontem, é possível que a média tenha ido para 3 ou até 4 horas, esperando transporte, e parado nas vias.

 

É nos dias de chuva que a gente vê como nosso equilíbrio anda no limite e que as contradições ficam mais aparentes:

 

1. O pé é o modo de transporte mais usado na cidade e o menos cuidado.

 

Quase um terço de todas as viagens diárias são feitas exclusivamente a pé. No outro terço – o transporte público – as pessoas usam o pé para chegar até o ponto de ônibus, a estação, o terminal.

 

As calçadas de São Paulo são de responsabilidade de cada morador. Na prática, temos uma colcha de retalhos, em que cada um constrói sua calçada (e a Prefeitura supostamente cuida) mas ninguém pensa na junção entre elas. O resultado são pisos desiguais, com buracos, desníveis e até degraus, criados para acomodar os carros nas garagens. Em dias normais, as pessoas caem e vão parar na ortopedia dos hospitais. Na chuva, com as cachoeiras de água rolando, quem pode simplesmente desiste de enfrentar as calçadas escorregadias e inóspitas.

 

2. A urbanidade dos motoristas dura até os primeiros cinco pingos

 

Motoristas muitas vezes parecem estar alheios ao que se passa no resto da cidade mas procuram emular um comportamento minimamente civilizado.

 

Na chuva, porém, com o trânsito parado e a vontade de chegar logo em algum lugar seguro, o comportamento muda para a indignação quando alguém resolve atravessar a rua, buzinar sem dó e até jogar água em quem passa ao lado das poças. Os pedestres já sabem disso e ficam pertinho das casas, já que não podem reagir e buzinar de volta. Vi duas pessoas pulando para não saírem encharcadas lá pelos lados da Vila Mariana.

Parece que, com a chuva, o lado de fora do carro, ou seja, a cidade inteira,  perde importância.

 

3. Se a frota de carros sair à rua ao mesmo tempo, ninguém sai da garagem

 

As estimativas da frota total da cidade variam de fonte para fonte, mas temos algo entre 5 e 7 milhões de automóveis na cidade. Diariamente, um pouco mais da metade dessa frota sai às ruas. Com a chuva, quem ia a pé, bicicleta ou de transporte público, resolve pegar o carro. O resultado é que ninguém consegue andar.

 

Os aplicativos, como Uber e 99, foram o modal que mais cresceu na última década e têm estimulado muita gente a deixar o carro em casa. O problema é que eles têm no mínimo duas características que não os tornam solução para a questão da mobilidade. Uma é o preço, que, apesar de mais barato que taxi, é proibitivo para a maioria das pessoas. Na chuva, aumenta a demanda e os preços disparam mais ainda.

 

A outra questão é que cada carro de aplicativo ocupa o memíssimo espaço de um carro particular, o que, obviamente, não reduz o volume ocupado nas ruas.

 

4. Transporte público é solução para o cotidiano, mas ainda tem pouca prioridade

 

Para fazer 20 milhões de viagem por dia, não dá para depender do transporte individual, que concentra um terço de todas as viagens. Os corredores de ônibus melhoram a circulação da cidade toda. Em cada ônibus, 20, 30, pessoas. Nos bi articulados, até 120.

 

Nos dias de caos, é fácil constatar como os corredores de ônibus são importantes, como o metrô é essencial, como os trens poderiam ter mais qualidade. E como os pontos de ônibus precisam ser mais confortáveis e finalmente como o acesso às estações precisa ser mais amigável, incentivando a tal intermodalidade.

 

5. Patinetes e bicicletas são alternativas de desafogo, mas em dias de chuva dependem ainda mais de ciclovias de qualidade

 

Em dia de chuva, fica ainda mais difícil andar em lugares inadequados. Nas ciclovias bem-feitas,  como a da Faria Lima, é possível andar na chuva, mais devagar, sem tantos riscos. Mais uma razão para a gente esperar os próximos 170 km de ciclovias que estão a caminho, anunciados pela Prefeitura na semana passada.

 

6. Quem mais precisa chegar em casa, mora mais longe

 

Muita gente resolveu esperar passar a chuva em bares, lojas e shoppings.

A questão é que grande parte das pessoas não pode esperar. Elas dependem de chegar na hora para buscar o filho na creche, para chegar ao trabalho, que muitas vezes é mais inflexível com horários e sabem que a casa está a duas, três horas de distância. É possível ver aflição quando começa a chuva. O trajeto da região central da cidade até as periferias é uma provação com ônibus lotado, em ruas paradas, com horário a cumprir.

 

7. A cidade precisa muito de água, mas quando a chuva vem, a sensação é de medo e não de alívio

 

Precisamos da água, a cobertura vegetal ao redor da cidade sumiu. E quando a água vem, vem com tudo.

 

São Paulo não é mais a terra da garoa, está claro. A chuvinha constante molha a terra aos pouquinhos e vai se escoando gradualmente. A chuva torrencial gera um volume enorme de uma vez só, que não se imiscui na terra e nas bacias, deflete no asfalto e gera enchentes, sem necessariamente encher nossas represas.

 

Claro que sempre houve tempestades tremendas, mas estamos vivendo o aumento dos eventos radicais e em vez da garoinha benfazeja, vamos ver cada vez mais as tempestades violentas.

 

A chuva vai voltar a cair. Mas enquanto estiver seco, a gente vai deixando a discussão para depois.

 

Fotos: Mauro Calliari

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