A dura volta ao cotidiano no planeta do carnaval sem fim

Parece que faz meses que o carnaval começou. Acostumamos a sair pela cidade e ver gente fantasiada, banheiros químicos, cachoeiras de glitter. Ao fundo, batidas constantes vindas de trios elétricos, batucadas, caixas de som.

Amanhã talvez isso acabe, e vai ser até estranho andar por uma cidade que não está tomada pelo carnaval.

A propósito do carnaval que nunca acaba, lembrei de uma historinha genial do personagem Astronauta, do Mauricio de Sousa, numa revistinha de 1971.

Nela, o Astronauta chega num planetinha estranho, onde as pessoas são obrigadas por robôs-ditadores a brincar carnaval todos os dias do ano, dez horas por dia. É uma punição por terem se rebelado contra o excesso de trabalho. A pena parece suave, mas não é – os habitantes são agora escravos do carnaval e dançam por obrigação, até que não aguentem mais.

O Astronauta consegue ajudá-los e os robôs se auto-destroem.  Livres, os habitantes precisam pensar na sua nova civilização. Um calendário é sugerido, mas a reclamação já surge no último quadrinho: – “só três dias de carnaval?”.

De volta ao nosso planeta, a notícia é a volta do carnaval de rua em larga escala em São Paulo, não mais por três ou quatro dias, mas por três ou quatro semanas.

A estimativa de quatro milhões de foliões já foi elevada para cinco, houve quem falou em nove, mas ninguém sabe de verdade quantos foram. Sabemos que foram muitos. Sabemos que eles vêm de toda a parte da cidade e de outras cidades vizinhas ou não tão vizinhas. Imaginamos, com uma ponta de preocupação, que no ano que vem vai ter mais gente ainda.

Essas pessoas todas vem atrás de algo que não têm no cotidiano. A festa proporciona a oportunidade de romper com a realidade.

Homens viram mulheres. Mulheres viram diabinhos ou anjos, ou tudo junto. As diferenças entre as classes sociais ficam menos evidentes. Quase tudo é possível. Até sair a pé na rua sem pensar em carros. Pessoalmente, essa é a coisa que mais me chama a atenção: a multidão andando a pé pelas ruas.

Andar a pé por ruas sem carros talvez seja é uma das maiores quebras da realidade do carnaval.

Andar na rua, parar na rua sem razão, dançar na rua, encontrar pessoas na rua e beijar na rua. Coisas que, no dia a dia, fazemos com parcimônia – ou não fazemos -, atentos às regras, às faixas e aos ditadores do espaço público, os carros, que logo logo serão robôs-carros.

Quem vai para a rua aprende a gostar da rua.

Vai ser bom se a vontade de ocupar a rua transformar os hábitos depois do carnaval. Veremos blocos se organizando para brigar por calçadas mais largas, escolas de samba cuidando de praças e ex-foliões passeando mais a pé, de bicicleta e demandando uma cidade melhor para quem está nas ruas.

Voltaremos à rotina, mas a rotina pode ser um pouco diferente e um pouco melhor depois de experimentarmos a rua.

 

Imagens: Turma da Mônica, fevereiro de 1971, Editora Abril.  Obrigado ao Sergio Figueiredo e Edenilson Rodrigues Lazaro pela indicação.

Fotos: Mauro Calliari

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