O verdadeiro civismo, ou as sete razões para a votação de hoje ter sido tão especial

O dia de votação foi sempre especial para mim.

Desde a primeira vez, nas históricas eleições de 1982, até o dia em que meus filhos começaram a votar, sinto aquele prazer em  depositar um papel na urna ou apertar um botão com minhas escolhas.

Hoje, porém, votar pareceu ainda mais transcendente. Voltei para casa e fiquei pensando nas razões para o ato quase rotineiro ter sido tão especial.

Talvez seja pelo alívio de constatar que sobrevivemos até agora à pandemia, durante esse longo período que o tempo ficou líquido e o dia virou uma noite sem fim. Hoje, ao contrário, metafórica e concretamente, o sol em São Paulo brilhou forte de manhã. Havia multidões andando a pé ou de bicicleta e até os motoristas pareciam dirigir mais devagar que o normal.

Talvez seja por só ter encontrado pessoas bem-humoradas, dos mesários — muitos deles voluntários — à mulher que jogava álcool na catraca e mandou um sorriso de bom dia, que intuí através da máscara.

Talvez seja pela familiaridade com a nossa simpática urna eletrônica com seus botões gigantes e pela  tranquilidade de saber que ela vai gerar um resultado confiável em menos de  cinco horas depois de terminar a votação, sem que candidatos malucos ou desesperados com a derrota preguem a desobediência civil ou a recontagem. Como já ouvi por aí, agora é hora de se preocupar com o Amapá e esquecer a Georgia.

Talvez seja porque a gente sentiu nesse ano o gosto ruim das ameaças às instituições. E é bom ver que as instituições estão ali, do Tribunal Eleitoral que organiza as eleições aos policiais que tomam conta das escolas.

Talvez seja por se tratar da eleição municipal, a mais próxima e a que gera consequências mais diretas e imediatas na nossa vida cotidiana, nas nossas calçadas, no transporte que usamos e na praça que frequentamos, ou não.

Talvez seja simplesmente pelo fato de votar na mesma escola onde estudei e encontrar aquele menino de 11 anos que não tinha nenhuma ideia de que o futuro iria virar passado um dia e que as memórias daquela época iriam ser tão importantes para o presente.

Talvez seja tudo isso junto.

E, no topo dessa pilha de sensações, a constatação essencial de estarmos todos fazendo a mesma coisa no mesmo dia. Essa simultaneidade impressionante deve ser a forma mais concreta de  civismo.

Não um patriotismo abstrato e dogmático, mas a soma de todas as ações individuais, de todas as pessoas que saem de casa no mesmo dia, com o mesmo propósito, o de esperar que amanhã seja um pouco melhor que hoje.

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