Andando pela cidade, de olhos bem fechados.

Seguindo o piso tátil
Seguindo o piso tátil
Seguindo o piso tátil

Acompanhei um casal com deficiência de visão durante uma caminhada. A cidade é implacável com quem não enxerga.

Avistei o casal enquanto caminhava para chegar a uma reunião em Pinheiros. Ambos deviam ter uns sessenta anos. Cada um com sua bengala, ele, elegante, com um chapéu. Cegos.

Tinham descido do ônibus e pareciam perdidos. Cheguei perto e perguntei se precisavam de ajuda. Eles estavam procurando um hospital, deram o endereço e eu me ofereci para acompanhá-los até lá.

A conversa engatou, os dois eram simpaticíssimos e falamos do tempo, dos ônibus e de árvores. Enquanto andávamos, pensava nas calçadas. Achava que as nossas calçadas eram ruins, mas aprendi que o que é ruim para quem enxerga é inóspito para quem tem deficiência de visão.

No chão, um verdadeiro campo minado. Buracos, falhas, saliências, bordas de canteiros, raízes. Qualquer desvão é uma armadilha, à espreita dos pés de quem não a vê, pronta para torcê-los e mandá-los para a ortopedia do Hospital das Clínicas.

Até o que é feito para ajudar às vezes atrapalha. Aquela pequena faixa “tátil”, apesar de útil, não funciona muito bem. Em um trecho do caminho, a faixa levaria os incautos pedestres diretamente até um poste.

O pior são os obstáculos aéreos: galhos de árvore, bordas das placas, letreiros e até um toldo baixo demais, que fez o meu companheiro bater a cabeça no ferro. Não foi forte, mas foi um susto e eu me senti responsável pelo incidente.

Atravessar a rua já é difícil com meus quatro olhos. Para quem não tem nenhum, é uma aventura. Apesar das bengalas à vista dos motoristas, apenas um parou. Será que quando ligamos a chave de um carro, estamos na verdade ligando um autismo automático?

Demoramos uma eternidade para andar três quarteirões. Quando chegamos ao hospital, vi que não era uma “clínica da visão”, como eu imaginava. Ele riu e disse: — “ A gente não está indo tratar da visão. Essa nós já perdemos. Estamos indo visitar uma amiga que foi operada”.  E ela: –“Obrigado pela sua atenção. Teríamos demorado um tempão se não fosse por você”.

O direito à cidade se conquista aos poucos. Passo a passo.

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