Barcelona, personagem essencial na saga de “Merlí e os peripatéticos”

A série catalã Merlí fez um sucesso tremendo na Espanha e em outros países. Em Barcelona, os atores viraram ídolos e dão autógrafos nas ruas. As três temporadas foram acompanhadas na TV aberta espanhola e influenciaram até no aumento das matrículas na faculdade de filosofia da cidade.

 

No Brasil, disponível na Netflix, a saga do professor iconoclasta de filosofia e de seus alunos também anda inspirando muitas conversas – até entre educadores. A cada capítulo, a série traz um filósofo, que de alguma maneira está ligado às desventuras cotidianas dos alunos durante a dura passagem pela adolescência.

 

Para quem curte e pensa em cidades, existe, porém, uma razão adicional para se interessar pela série: a ligação dos adolescentes com Barcelona. A cidade não é apenas um cenário, é também uma personagem. Sem nenhum spoiler, para quem não viu, vale a pena pensar em como a cidade e as pessoas interagem:

 

Rua é para as pessoas

 

É nas ruas de Barcelona que os adolescentes da escola Angél Guimerá pensam na vida, passeiam, namoram. Entre a escola e a casa, há muito que fazer, muito lugares por onde andar. Quando estão deprimidos, vagueiam pelas calçadas à noite. Quando felizes, andam em grupos até as praças, fazendo barulho e rindo. O ponto em frente à escola está lá para lembrar que há os que se deslocam em transporte público, com um banquinho digno para esperar o ônibus, que serviu como lugar para conversas inesperadas na série, entre alunos e professores.

A Rambla, considerada pelo escritor Alan B. Jacobs “a melhor rua do mundo”, às vezes dá as caras na série.

 

Densidade com qualidade.

 

Barcelona foi uma das precursoras no desenvolvimento planejado entre as cidades européias. Na mesma época em que Haussman fazia as grandes reformas de Paris, Ildefons Cerdá, em 1860, planejou o ensanche, o crescimento da cidade através daquelas quadras tão características. Ele imaginava prédios em apenas duas bordas do quarteirão com mais verde no meio.

 

Os famosos quarteirões de Barcelona.

 

Na prática, todos os lados das quadras foram tomados. Mesmo assim, a cidade cresceu com qualidade, e, apesar dos prédios baixos, tem alta densidade. Os adolescentes da série caminham por calçadas largas, generosas e encontram na rua tudo – ou quase tudo – o que precisam.

 

 

Agorafobia

 

É muito interessante que, vivendo numa cidade onde o espaço público é um dos mais generosos do mundo, um personagem, Iván, desenvolva justamente a agorafobia – o medo do espaço público. O processo de cura, com a participação de Merlí é uma bela aula de como reencontrar a vontade de viver, ver gente, andar, sentar numa praça.  E a praça onde eles se encontram existe de verdade e é uma beleza:

 

Praça de Sant Vicenç de Sarriá

 

Sinuca, bares, música

 

Em algum momento lá pela segunda temporada, os meninos e meninas passam a se encontrar depois das aulas para jogar sinuca. Em um capítulo a personagem Tânia aparece sozinha, tranquila, jogando enquanto espera por uma amiga. Onde é que a gente vê isso por aqui? Humm, pensando bem, existe em Pinheiros o famosos “Big Small”, que está cheio de adolescentes jogando à tarde. Em compensação, o pessoal da série vai pouco ao shopping. Em um episódio, o professor propõe um inusitado passeio ao shopping center, como um experimento para testar a sedução do consumo. Os alunos parecem excitados com a novidade. Para quem assiste, é até estranho vê-los fora das calçadas amplas, dentro de um espaço com escadas rolantes, música ambiente e ar condicionado.

 

Diversidade

A cidade é o lugar de encontro entre os diferentes. Na mesma classe, estudam o filho de um desempregado crônico, o filho de um advogado, a filha de um médico rico. Mesmo no enclave catalão, surgem os imigrantes, como o pai de Pól, um espanhol que se recusa a falar catalão ou Oksana, filha de ucranianos e adotada por uma família catalã. E ainda há os turistas, que despertam fúria em Merlí, para quem a invasão está prejudicando a cidade. O tema de fato anda tirando o sono de prefeitos de cidades turísticas, que assistem assombrados ao aumento dos preços dos aluguéis, que já estão fazendo os locais mudarem-se cada vez mais para longe do centro.

 

Por que os alunos são chamados de peripatéticos pelo professor?

 

Historiadores acreditam que, no Liceu fundado por Aristóteles, na Grécia Antiga, o aprendizado se dava em parte caminhando por entre os arcos do local, os peripatos . Daí surgiu o termo  “peripatético” – caminhante, intinerante, ou em perpétuo movimento.

Sair da sala de aula e aprender caminhando é o sonho de todo aluno, principalmente se morar em Barcelona e se tiver um professor inspirador como o Merlí Bergeron.

 

Onde fica a escola Ángel Guimerá?

Escola Mare de Déu de Montserrat. Foto: Google Maps.

Muitos turistas começaram a procurar pela escola onde foi filmada a série. Na verdade, as cenas internas foram gravadas numa escola desativada, que se chamava Menéndez Pidal. Depois das filmagens, o prédio foi invadido por movimentos de ocupação, segundo o site Metropoli Abierta.

 

As cenas externas foram gravadas em outro local, onde está a escola Mare de Déu de Montserrat. Se quiser fazer um tour virtual, esse é o endereço.

 

 

2 comentários sobre “Barcelona, personagem essencial na saga de “Merlí e os peripatéticos””

  1. Assisti o seriado todo e, apesar de ser um grande adepto às caminhadas, não havia feito a conexão com a importância da utilização do espaço público que está subentendido tanto no apelido do grupo de estudantes, Peripatéticos, quanto na doença Agorafobia e a relação entre os estudantes que extrapolavam os limites da escola. Excelente artigo!

    Abraço,

    Hugo Peroni

    1. Olá, Hugo! Que bom que você curtiu! Pra falar a verdade, a história da agorafobia não tinha me chamado a atenção quando vi, mas depois, pensando no lugar onde esses caras moram, paisagem urbana essencial, acho que o roteirista não fez nada por acaso! abraço pra você, boas caminhadas! Mauro

Deixe uma resposta