Bem-vindos, conselheiros eleitos do Parque Pôr do Sol

Parque do Pôr do Sol
Parque do Pôr do Sol
Parque do Pôr do Sol

Domingo passado, dia chuvoso, meio de um feriado prolongado em São Paulo. 408 pessoas saíram de casa e foram até a Subprefeitura de Pinheiros para votar. Elas foram escolher seus representantes no conselho do Parque Pôr do Sol *que vão se juntar ao representante dos trabalhadores do parque e ao representante mais votado entre organizações que atuam na região, a Sociedade Amigos do Alto de Pinheiros.

Explicitar o conflito é o primeiro passo para resolvê-lo

Existe um conflito evidente hoje. Há pessoas que moram ao lado do Parque. Há pessoas que vêm de outros pontos da cidade e até e outros municípios para apreciar a linda vista. É paradoxal, mas nossa cidade, apesar de cheia de morros e colinas, não tem muitos mirantes. Há o espaço sob o Masp, de onde se descortinava uma vista linda e hoje vêem-se basicamente prédios e a Av. Nove de Julho. Há o viaduto da avenida Doutor Arnaldo, onde o pessoal faz rapel, que permite ver até as montanhas na zona norte. Há o lindo mirante da Cantareira, fora da região urbanizada. Há outros,  claro, mas o pôr do sol parece ser mais apreciado se visto do lugar que ganhou informalmente, seu nome.

Eu passei algumas noites de sábado lá na década de 1980. Éramos poucos na praça vazia, limpa, linda e silenciosa. A questão é que o número de pessoas foi crescendo, crescendo e os poucos grupos se transformaram numa multidão. E multidões, por definição, abrigam desde as pessoas que levam e recolhem seu lixo até grupos enormes de amigos que ouvem som alto, jogam garrafas na grama e fumam maconha. A visão do lugar num dia de manhã chega a ser triste tamanha a sujeira acumulada e a falta de cuidado, que, aliás, não mudou nada desde que a praça virou parque.

A sujeira do dia seguinte
A sujeira do dia seguinte

As pessoas que moram no entorno da praça têm direito de estarem em casa com tranqüilidade e saírem para o espaço em frente em paz. Os paulistanos têm direito de usarem um espaço público agradável. Ninguém tem o direito de sujar e incomodar. Como resolver isso?

Como discutir propostas sem cair no dogmatismo e sem fugir dos problemas.

O novo conselho do Parque vai começar a se reunir. É um processo de interação que depende de alguma paciência. Talvez haja opiniões discordantes sobre o diagnóstico do problema. Talvez haja quem tenha propostas de mudanças radicais no funcionamento da praça antes de discutir alternativas.

Não deveria haver temas proibidos, mas espero que esse grupo de pessoas saiba trabalhar em conjunto, discutindo e aprofundando as decisões. Tomara que consigam chegar rapidamente a um consenso quanto a questões básicas a serem atacadas rapidamente pelos gestores da praça, como limpeza, zeladoria, instalação de lixeiras, segurança e comunicação com os frequentadores. E que discutam com profundidade as questões mais polêmicas.

É possível pensar que algumas ações simples já dêem conta de resolver grandes problemas. É possível também que, mesmo com normas de funcionamento, o grupo resolva deliberar sobre grades e horário de funcionamento. Tomara que não seja necessário, talvez venha a ser, mas é preciso testar soluções gradativamente e garantir que não se perca algo que não possa ser recuperado.

Estatisticamente, sempre vai haver gente que não sabe se portar em público. Alguns desses talvez aprendam ao ver o comportamento civilizado da maioria. Outros poucos nunca mudarão e para esses casos, temos um poder público que deveria ser treinado e competente para saber quando e como intervir, com grade ou sem grade.

O importante é que esse grupo de conselheiros acompanhe as mexidas no parque e consiga respeitar as diferenças entre eles em nome do que têm em comum: o fato de serem pessoas dispostas a trabalhar por um espaço público. As deliberações de um grupo heterogêneo tendem a ser mais legítimas e a durar mais.

Por que parque e não praça?

O parque era uma praça e há um ano foi “promovido”. Com a nova categoria, ele passa a ser gerido pela Secretaria do Verde em vez de ser cuidado pela Subprefeitura de Pinheiros. Em princípio, isso não faria nenhuma diferença, afinal em qualquer modelo de gestão, deveria haver uma verba para cuidados básicos, zeladoria, paisagismo, etc. Mas  um parque tem, por lei, o apoio de um conselho de pessoas que se interessam pelo lugar e que representam os diversos segmentos de frequentadores. Há pessoas que estão propondo que praças também tenham seus conselhos, o que seria uma ótima ideia e acabaria com a necessidade de transformar praças em parques apenas para garantir sua proteção.

A presença de pessoas que têm ligação com o lugar faz toda a diferença. Nada substitui o olhar do freqüentador, que deseja que um lugar melhore e que se mantenha acessível e bem cuidado. E que tenham, claro, o apoio da Prefeitura que é, em última instância, o responsável pela gestão.

Desejo boa sorte aos conselheiros, competência aos gestores públicos e urbanidade aos frequentadores desse e de todos os outros parques – e praças – de São Paulo.

 

* José Ricardo Skrowonek Resende, Leticia Lindenbergh Lemos e Ana Flavia Del Fabbro, além de três suplentes, José Roberto Bandouk, Silvia Zanon Magalhães e Vera Lucia de Lucena Bussanger.

fotos: blog da Saap

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