Carnaval. Em meio à multidão, procure o indivíduo

Carnaval em São Paulo. Foto: Mauro Calliari
Carnaval em São Paulo. Foto: Mauro Calliari

Algo mudou nessa cidade e mudou muito rápido. Duas décadas atrás, os paulistanos fugiam da cidade durante o carnaval. A festa era restrita ao sambódromo, alguns bares, clubes e a algum bloquinho heróico nas ruas dos bairros. O resto era um silêncio agradável e melancólico.

Hoje, a cidade está tomada pelos blocos. Não apenas durante o carnaval, mas no longo período de “pré-carnaval”, que pode durar semanas, exaspera os moradores, estimula os carnavalescos e alerta o poder público. Quem era chamado até ontem de cidadão, eleitor, jovem, desempregado, motorista, profissional, pedestre, vira, de uma hora para outra “folião” e “foliona”.

As estatísticas ocupam os jornais: “dois milhões de pessoas nas ruas”, “cinco mil banheiros químicos”, “reforço de centenas de policiais”, “quinze milhões de reais de patrocínio” e “sensação térmica de 37 graus ”.

Em meio a tantos números, penso em como São Paulo não tem meio-termo. A cidade vazia se transformou na cidade hiperlotada, sem escalas, sem tempo de nos acostumar. Aqui tudo termina em multidão.

Sábado de pré-carnaval, em Pinheiros, logo de manhã, vejo jovens em grupos chegando fantasiados para saírem num bloco. A música é alta, o calor é fortíssimo. Logo o cheiro de suor e cerveja toma conta do lugar. A multidão bebe, a multidão faz xixi, a multidão sua. Suspeito que a maioria gosta quando chega o fim da obrigação de dançar no sol escaldante e saúda o fim do desfile como um convite para sair à cidade.

Quando finalmente a multidão se dispersa, acontece o fenômeno — aparecem as pessoas. É a hora de sentar na calçada, de encontrar um bar e relaxar, olhar o movimento e perceber que a massa azul esconde os indivíduos, que têm cores diferentes entre si e que fazem coisas diferentes quando acaba o rito coletivo.

Espaço Público e urbanidade.
Fim de Carnaval em São Paulo. Foto: Mauro Calliari

Um casal de mãos dadas parece trocar olhares apaixonados. Mas logo se separam. Será que já acabou o namoro, após as cinco horas regulamentares de amor? Um grupo de meninos e meninas passa rindo, mas educadamente dão lugar para que eu passe na calçada.  Do outro lado da rua, um outro grupo, só de meninos, faz o contrário, hostiliza quem passa perto, um imbecil joga uma garrafa no chão.

Vejo que a rua está tomada por cacos, imagino que haja vários meninos imbecis que precisam mostrar aos amigos que podem espatifar uma garrafa ou fazer xixi no muro da casa, incentivados pelo grupo, pela multidão, e pelo calor. Em “O estrangeiro”, de Camus, Mersault explica porque cometeu o crime: — “estava muito calor”. No livro, ele foi preso e condenado.

Mas há de tudo. Percebo que, longe da multidão, as pessoas voltam a ser o que são. Sim, há os que fazem besteira, mas há os que riem e conversam e sentam e olham a lua linda na noite quente. Num bar com mesas na calçada, sento perto de dois rapazes com camisa de time de futebol, descubro que eles saíram de um jogo no Morumbi. Ao lado deles, a menina carnavalesca ainda está com o véu de noiva e a purpurina.

Esse é o momento em que o carnaval faz mais sentido, a hora em que as pessoas usam a cidade, as ruas, os bares, as praças e se encontram pacificamente.

É uma pena que em São Paulo tudo vire logo um encontro de multidões, seja nos jogos de futebol, marchas religiosas, protestos políticos, shows, baladas ou nas convenções empresariais. Com doze milhões de habitantes, tudo vira um jogo de estatística e logística, que envolve fechamento de estações de metrô, banheiros químicos, polícia e infraestrutura.

É pena que o bloquinho tenha dado lugar ao mega-bloco com patrocinador. Mas, já que é assim, é bom que saibamos organizar os mega-eventos, pensando em quem se diverte mas também em quem mora perto da muvuca, sem medo de coibir excesso, sem pudor de permitir a alegria.

Se isso for o custo necessário para podermos ver adolescentes sentados numa praça, de noite, conversando calmamente num lugar sem cheiro de xixi, sem cacos de garrafa e sem violência, que seja.

Andar pela cidade é a melhor parte do Carnaval.

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