Domingo de feriado na rua Javari. Entre canolis e camisas grená, o sentido da escala local

Éramos exatamente 1.091 pagantes no jogo do Juventus contra o Audax pela Copa Paulista, no feriado.

No mesmo dia, na Arena Palmeiras, foram quase 40 mil torcedores. Na véspera, no Morumbi, outras 40 mil pessoas. Essa é uma proporção que parece explicar muita coisa – 40 para 1.

Quando há 40 mil pessoas, o trânsito na cidade pára, há policiamento especial, ônibus extras, filas, brigas. Quando há mil, a gente chega ao estádio, compra ingresso de uma bilheteira simpática, passa pela revista protocolar e entra.

Dentro do estádio, inaugurado em 1941, a lojinha vende as lindas camisas antigas. O vendedor ajuda a escolher com calma e conversa sem pressa. Aprendi que o time tinha o nome de Cotonifício Rodofo Crespi F.C. e quando mudou de nome, pensaram num uniforme preto e branco, como a da Juventus italiana, mas já havia muitos times em São Paulo assim – Santos e Corinthians, por exemplo, e acabaram escolhendo o grená – justo a cor do adversário da Juve, o Torino.

As placas de publicidade parecem ser do comércio da região. Quem administra a lanchonete que vende o pão com mortadela e café é uma família. Os torcedores vão chegando durante o jogo e muitos se cumprimentam.  No intervalo, há uma fila para comer o famoso canoli. Mas a espera é rápida e o doce é bom.

As torcidas organizadas ficam cada uma atrás de um gol. Uma canta o tempo todo, no estilo mais “argentino”, a outra toca aquele batuque bom, que ajuda o time a ir pra frente.

No gramado digno, o jogo é difícil, mas o Juventus ganha por 2 a 0. A comemoração é contagiante. Um torcedor sobe no muro. O barulho aumenta. Um casal se abraça. Crianças sorriem.

Ao final do jogo, basta levantar e sair. Não há o tumulto dos grandes estádios, nem a penosa caminhada em meio à multidão que desvia dos cavalos dos guardas, dos carros e das towners que vendem sanduíche de pernil. Andamos tranquilos até a Di Cunto para comer um macarrão. No restaurante, muitos vestem a camisa grená.

Na cidade dos 12 milhões de habitantes, é um prazer ir a um programa que não exija uma operação logística. No feriado, todos os lugares parecem estar lotados. A Bienal no Ibirapuera, as feiras, a Liberdade, a Paulista, os bares e os estádios. Tudo lotado. Na Mooca, porém, o jogo do Juventus foi um oásis na confusão.

A escala local, das coisas próximas e significativas, dá seu recado. Não se trata do tamanho, mas do sentido. O clube Juventus é um dos maiores do Brasil. No distrito da Mooca vivem 63 mil pessoas. Mesmo assim, o pequeno estádio reverencia sua história e acolhe sem alarde os vizinhos.

As coisas parecem fazer mais sentido quando estão próximas, quando a história do lugar se imiscui no dia a dia. Quando o vendedor de amendoim na arquibancada cumprimenta um torcedor. Quando alguém que cuida do pequeno estádio Conde Rodolfo Crespi se preocupa em expor um painel com as fotos históricas da inauguração e dos grandes jogos.

Estádio da rua Javari, anos 1930. Foto Clube Juventus

As coisas parecem fazer mais sentido quando as duas moças que vendem ingresso atendem com simpatia aqueles 1.091 pessoas que saíram de casa para viver uma experiência tranquila, de ir a um bom jogo num lugar que respeita o seu passado, antes da macarronada do domingo.

 

Fotos: Mauro Calliari

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