“Indústria da multa” ou “Indústria de maus motoristas”?

A discussão de hoje é sobre o promotor que acusa a Prefeitura de São Paulo de incentivar o uso indiscriminado de radares pela cidade e de utilizar os fundos provenientes das multas para usos que não são os previstos em lei.

A questão do uso dos recursos é simples de resolver. Se a Justiça entender que a Prefeitura pode usar os recursos das multas em faixas de pedestre, ciclovias, ou pontos de ônibus, ótimo, que use. Se não, não há problema, é só gastar os mais de R$ 474 milhões de receita anual em “ações de educação de trânsito”, que vão estar dentro da lei e vai ser ótimo, porque é justamente disso que nós precisamos!

Nós somos uma cidade de mal-educados no trânsito e o termo “indústria da multa” parece querer disfarçar o fato de que os radares multam apenas quem comete infrações.

Não é preciso ir longe. Vá até a esquina da sua casa, fique lá quinze minutos e responda: quantos motoristas passaram no sinal vermelho? Quantos fizeram conversão sem esperar pela passagem de um pedestre na faixa? Quantos mudaram bruscamente de faixa?

Eu fiz esse teste outro dia. Sentei numa padaria e fiquei olhando o cruzamento da Rua Pinheiros com Rua Cônego Eugênio Leite. A cada três vezes que o sinal fechava, pelo menos um carro passou no vermelho. Contei onze motociclistas furando o sinal depois que todos os carros já estavam parados. Dois deles ignoraram pedestres que atravessavam na faixa. Um dele fez com que o pedestre, um homem de uns trinta anos, desse um pulo para o lado para não ser atropelado.

Na Av. Frederico Hermann Junior, perto da Subprefeitura de Pinheiros, há um radar apenas num sentido da via. Do lado do radar, todos os carros que vêm da Marginal dão uma freadinha e reduzem a velocidade e depois aceleram. No outro sentido, não há radar. Vejo motoristas andando a mais de oitenta por hora, vejo carros que viram no proibido, vejo motoristas de ônibus que aceleram quando vêem um pedestre na faixa e já fui atrás de dois manobristas de um serviço de valet de um bar próximo (Quantos clientes terão bebido antes de dirigir?) que estavam certamente a mais de cem quilômetros por hora. Ou seja, o pessoal parece respeitar a sinalização quando tem punição envolvida. É triste, mas é assim.

Sim, é possível que alguns dos radares colocados pela prefeitura estejam em locais que não permitam ao motorista ter tempo de reduzir a velocidade depois de ver uma placa ou algo assim. É possível que um ou outro motorista tenha sido multado injustamente ou que andemos mais preocupados com os radares do que com as placas. Não sei se é intencional ou não e sugiro que quem encontre um problema assim faça uma reclamação formal no site da CET. Talvez funcione, talvez não. A questão mais importante realmente não é essa. A questão é que os radares multam quem comete infrações.

E nossa sociedade é uma fábrica de infratores.

Negligenciamos a educação no trânsito nas escolas. Fabricamos carros e oferecemos desconto de imposto para que mais e mais pessoas pudessem ter acesso ao carro sem nos preocupar com a educação no trânsito. Facilitamos o exame da carteira para os novos motoristas. Fazemos vista grossa à corrupção que dá os atalhos para quem não quer prestar exame. Assistimos extasiados a propagandas de carros que andam em cidades vazias, acelerando no cenário idílico da madrugada enquanto ouvimos um sujeito falando rapidinho – “no trânsito somos todos pedestres”. Deixamos o carro em fila dupla na escola ou no restaurante ou na faculdade para não andar mais cinqüenta metros, sem se importar onde e como esse carro vai ser parado. Andamos em ônibus que freiam e aceleram bruscamente sem reclamar. Reclamamos do diskpizza ou do diskesfiha que atrasou cinco minutos sem nos perguntar quantos sinais ele desrespeitou. Pedimos pressa ao motoboy que leva os documentos para reconhecer firma, sabendo que ele vai trafegar na contramão, na calçada e cruzar o canteiro central pela grama para chegar na hora.

E morremos no trânsito.

Pelo relatório da CET que saiu há pouco, foram 992 mortes no trânsito no ano passado. Um pedestre por dia. Um motociclista por dia. Um motorista a cada dois dias. Pessoas. Que saíram de casa e esperavam chegar em algum lugar.

A única boa novidade é que esse número baixou. Pela primeira vez desde o início das medições em 1979, está abaixo dos mil por ano. A queda é grande e merece ser estudada e comemorada.  Precisamos entender o que funcionou e que ajudou a causar essa queda. A redução na velocidade, o aumento da fiscalização, o menor número de carros nas ruas por causa da crise… Cada pequeno movimento na direção certa – menos pessoas mortas – deveria ter nosso apoio incondicional, em vez da reclamação desajuizada.

Nós ainda andamos rápido demais, dirigimos mal demais, desrespeitamos demais os pedestres e morremos demais.

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