Mobilidade e redução da desigualdade. Sete sugestões para São Paulo

O discurso de um novo prefeito é uma ótima forma de saber o que cobrar do governo ao longo dos próximos anos.  Por isso, li o discurso de posse do prefeito Bruno Covas com muito interesse. 

 

O combate à desigualdade

 

Pois bem, acho que houve no discurso algumas questões bem colocadas: o necessário reforço à democracia e à politica, o combate aos efeitos da pandemia,  a relação com o legislativo e a preocupação com a diversidade.

 

O principal objetivo, porém, foi apresentado de maneira muito explícita e me parece o mais acertado: o combate à desigualdade. “Ao fim dos próximos quatro anos, pretendo ter construído uma São Paulo menos desigual e mais inclusiva”. Faz sentido. A desigualdade foi ganhando protagonismo no Brasil da Covid e, após os bons debates do segundo turno, passou a ser, merecidamente, a  grande pauta da cidade.

 

Essa prioridade traz responsabilidades. A partir de agora, praticamente todas as ações da Prefeitura  deveriam trazer alguma contribuição para a redução da desigualdade, em todas áreas. Na mobilidade, que é um assunto que eu acompanho mais de perto, como membro do Conselho de Transportes de São Paulo, há muito a fazer para que caia a desigualdade entre quem mora nas regiões centrais e quem mora nas regiões mais periféricas.

 

A desigualdade na mobilidade

 

Hoje, o tempo e o custo gastos nos deslocamentos não são apenas fatores que explicam a desigualdade: eles contribuem para manter a desigualdade.

 

Enquanto alguém que mora na Brasilândia pode demorar três horas para ir e voltar até o Centro, alguém que more na Barra Funda, onde mora o prefeito , vai demorar e gastar menos de um terço disso. A economia de duas horas por dia contribui para aumentar a diferença já grande entre essas duas pessoas. O custo também pesa, claro.  Segundo o IBGE, o transporte passou a ser o segundo ítem na cesta de gastos dos brasileiros, com 18,1% na média.

 

Para isso, diante da justíssimo objetivo de reduzir a desigualdade, vale a pena pensar em alguns aspectos práticos que podem ajudar a cidade a trazer a mobilidade para um patamar menos injusto. Faço aqui sete sugestões que me parecem importantes para transformar uma ideia boa numa ação efetiva:

 

1. Cuidado com o tempo de espera entre os diversos modos de transportes

 

Com a implantação do novo sistema de ônibus, há que se controlar o tempo total de trajeto, não apenas o tempo dentro do transporte.

 

No sistema anterior, S.Paulo tinha dois níveis de hierarquia das linhas dos ônibus. Agora, vamos ter três, o que quer dizer que um ônibus local vai levar as pessoas até uma linha regional que por sua vez encaminha os passageiros para um grande tronco. Na prática, são duas trocas de ônibus em vez de uma e isso precisa ser acompanhado de perto, garantindo principalmente a frequência e a liberação de mais faixas exclusivas para essas linhas troncais para que o tempo ganho nas pistas não seja perdido na espera.

 

2. Evitar as trocas de comando na secretaria de mobilidade

 

No mandato que se encerrou, São Paulo teve nada menos que 4 secretários de transporte. A troca do prefeito no meio do mandato explica algumas delas, mas evidencia também o tempo que a estrutura organizacional precisa para se acomodar às mudanças. A última secretária, Elisabete França, ficou apenas 6 meses no cargo, o que parece ser insuficiente para que qualquer trabalho floresça. O novo secretário, Levi Oliveira, exercia a função de presidente da SP Trans, a empresa que controla os ônibus da capital, então, é de se esperar que ele possa começar o trabalho imediatamente, conduzindo sem pausas os planos que já existem.

 

3. Ampliação do número de atores nas decisões ligadas à mobilidade

 

O prefeito citou, no discurso, a necessidade da prefeitura dialogar com a iniciativa privada, o que parece ter evidenciado uma ausência importante: se de um lado, é absolutamente necessário estimular os investimentos privados, de outro, faltou o compromisso de manter o diálogo com a tal sociedade civil, que, na forma de ONG´s, conselhos e comitês, deveria ajudar a prefeitura a estabelecer os parâmetros de qualidade.

 

Como saber se os ônibus estão confortáveis? Como não esquecer dos problemas de quem tem dificuldade de locomoção na hora de entrar nas estações e subir nos trens e ônibus? Como garantir que os horários estão sendo cumpridos? Não dá para prescindir da consulta aos conselhos que já existem, que têm justamente essa função – trazer a voz dos cidadãos para a tomada de decisões.

 

A mesma coisa acontece nas operações urbanas. Elas estão adquirindo um papel cada vez mais importante na cidade, com dinheiro para gerar transformações localizadas. Cada operação tem um conselho e esse conselho representa os diversos interesses envolvidos. Não dar atenção a eles, significaria não garantir prioridade para os espaços públicos, a moradia popular, o transporte ativo, etc etc, que é o que aconteceu, por exemplo, no início da operação urbana Faria Lima.

 

4. Tratar a mobilidade a pé como acesso à cidade

 

Ausente da fala do prefeito, o andar a pé parece ser uma atividade tão natural que não é preciso nem mencioná-la. O problema é que é justamente o contrário. Apesar de ser o modo mais usado de deslocamento na cidade, a mobilidade a pé é uma rubrica quase invisível no orçamento e nas prioridades da cidade. O sistema de transporte simplesmente não vai melhorar se não melhorar a caminhabilidade.

 

É o pé que leva as crianças às escolas, os moradores ao mercado e à farmácia e que garante uma troca suave entre os meios de transporte (a tal intermodalidade). É portanto, o passaporte para que alguém saia de casa e ganhe o direito à cidade. E é nos lugares mais carentes, violentos e inseguros que esse direito é mais tolhido.

 

A Prefeitura tem alguns programas  para melhorar a vida de quem anda a pé (quase todos nós, basicamente) mas faz falta uma pessoa ou uma estrutura dedicada a pensar nisso como um tema transversal: o andar a pé se liga à educação (na chegada e saída às escolas), à saúde (quem anda mais, fica mais em forma), à vitalidade econômica (os grandes pontos de concentração de pessoas a pé normalmente atraem lojas e serviços e lazer).

 

5 . Investir na descentralização administrativa e nas subprefeituras como protagonistas da mudança local

 

Uma outra ausência notável, principalmente para alguém que estava justamente enaltecendo a negociação política, tão necessária, foi a falta de menção à descentralização. A negociação com a Câmara é essencial, claro, mas ela não garante que as políticas públicas serão implantadas onde são mais necessárias.

 

As subprefeituras podem ser o local físico dessa política local, com ou sem a influência dos vereadores, principalmente no que toca à implantação de ações. Onde instalar uma ciclovia? Como melhorar os acessos ao posto de saúde novo e o CEU, etc? Só quem mora no local saberá ajudar a tomar as decisões corretas. O problema é que as subprefeituras têm muitas responsabilidades e pouca verba. Não dá para pensar em redução de desigualdade sem aumentar o poder de ação local, de mediação de conflito, de fiscalização e mobilização das 32 subprefeituras.

 

6. Inserir os problemas locais na região metropolitana

 

Transporte, água, saneamento. Tudo o que é fluxo – de veículo, de dados, pessoas ou água, acaba envolvendo os demais 38 municípios da região metropolitana. Na ausência de uma autoridade metropolitana, o prefeito de São Paulo tem o papel quase natural de coordenar esses esforços conjuntos. Não dá, por exemplo, para falar de qualidade da água dos rios em São Paulo, sem falar do esgoto de Guarulhos.

 

A mesma coisa acontece quando se fala em transportes. A redução de desigualdade passa por facilitar a vida de quem é obrigado a se deslocar entre as diversas cidades, integrando frotas e principalmente, garantindo que o bilhete único funcione em todas as cidades da metrópole. Quem passa tempo na fila para comprar bilhete e se preocupar com integração tarifária, perde tempo útil de procurar emprego, de fazer comida ou de levar o filho ao médico, e ainda gasta mais que os outros.

 

7. Visão de cidade

 

O prefeito falou que São Paulo é maior que cada um de nós e que vai ser importante retomar o protagonismo da cidade no Brasil. Essa noção do coletivo é muito importante, mas senti falta de ver uma visão de futuro mais concreta. Aquela inspiração que dá forma ao futuro e que nos coloca numa mesma direção, conjuntamente.

 

Senti falta de ouvir falar da vida cotidiana, da qualidade que a gente espera da cidade, do papel essencial dos espaços públicos e do encontro que vai voltar após a pandemia. Senti falta do  Anhangabaú, dos terminais de ônibus, da Paulista, do Ibirapuera, dos parques da periferia, das calçadas dos bairros. É na concretude desses espaços que a visão de cidade – mais justa, menos desigual, mais vital, com mais empregos, como sugere o prefeito – se consolida.

 


Cobrar melhorias constantes

 

Bem, todo mundo sabe que administrar São Paulo não é fácil, mas é nosso dever esperar – e cobrar – para que cada ação na cidade vá na direção da frase do prefeito no discurso:” Contem comigo, juntos, faremos da nossa cidade um lugar melhor para se viver”.

 

Portanto, nada de esperar pelo fim do mandato, vamos cobrar e trabalhar para que a cidade vá melhorando um pouquinho a cada dia durante os próximos quatro anos, e que melhore mais rápido para quem tem menos. Não é pedir demais de uma nova gestão da maior cidade do Brasil.

 

4 comentários sobre “Mobilidade e redução da desigualdade. Sete sugestões para São Paulo”

  1. Mauro, comecei a leitura sem ver o autor, mas te reconheci ao longo do texto , o que confirmei só retornar ao título… estilo preciso e gentil

  2. Muito bom Mauro! Só lembrando de mais uma desigualdade, a frota da periferia é toda composta de ônibus do transporte coletivo é toda composta de veículos inacessíveis (e câmbio mecânico), que exigem que as pessoas subam um degrau de 45 cm. Isso devia mudar desde uma lei de 2003, mas ficou ignorada pelas administrações.

    1. Olá, Élio! Estamos acompanhando isso de vez em quando no Conselho Municipal de Trânsito e Transporte de São Paulo. Segundo a Prefeitura, esses ônibus antigos estão sendo trocados pelos novos, mais acessíveis. Vou ver se consigo pegar o número atualizado!

Deixe uma resposta