“Na cidade do futuro, o digital não vai substituir nosso desejo de encontrar outras pessoas”. Uma conversa com Carlo Ratti, diretor do MIT.

Carlos Ratti foi destacado ela revista Wired como uma das 50 pessoas capazes de mudar o mundo. Afinal, ele é o diretor do Senseable City Lab do MIT (Massachussets Institute of Technology), responsável por estudar as tecnologias capazes de transformar a vida nas cidades.

Ratti vai estar no Brasil na quarta, dia 28 de fevereiro, para fazer a conferência de abertura do Smart City Expo Curitiba.

Conversei com ele por email para entender como o MIT está vendo o futuro do comércio eletrônico, carros autônomos e a mobilidade a pé na cidade do futuro.

As respostas de Ratti podem surpreender quem imagina um nerd mergulhado de cabeça na tecnologia sem olhar para o mundo. Ele cita o escritor Ítalo Calvino para falar do comércio, defende a experiência física da cidade e diz que o futuro “não está escrito”.  Para ele, é o uso que se faz da tecnologia que vai melhorar – ou não – a vida nas cidades.

A surpresa mais bem vinda é que, para o diretor do MIT, mesmo com mais tecnologia disponível e com mais produtos ofertados pelo delivery, provavelmente andaremos mais a pé pela cidade. Nossa necessidade de encontrar outras pessoas, namorar e experimentar as ruas vai sempre nos levar para fora de casa.

Esse é o resumo da entrevista por email, traduzida do inglês.

Andar a pé

“Acho que o andar e as mobilidades ativas como andar de bicicleta – vão aumentar. Há um impacto cada vez mais mensurável de quanto o andar faz bem para a saúde. Além disso, nossas cidades devem virar mais amigáveis para o pedestre, com os veículos elétricos – que melhoram a qualidade do ar – e os veículos autônomos, que devem transformar o próprio desenho da cidade.”

O futuro e a tecnologia

“O futuro não está escrito. Ele vai ser determinado pelas decisões que nós tomarmos ao longo do tempo. As mesmas tecnologias podem ter impacto bem diferente em cidades diferentes.”

A conseqüência dos veículos autônomos para a cidade

“Hoje, nossos caros ficam parados uma média absurda de 95% do tempo. Como resultado, a estrutura de estacionamento é tão invasiva que para cada carro nos Estados Unidos, existem aproximadamente três vagas disponíveis – o que dá 5 mil milhas quadradas, uma área maior que Port Rico.

Os carros autônomos podem ser usados durante o dia, o que provavelmente vai reduzir o total de vagas de estacionamento. Com o tempo, é bem possível que vastas áreas de estacionamento possam vir a ser usadas para coisas totalmente diferentes, como mais parques e calçadas, por exemplo.”

Sobre o DOT (Desenvolvimento orientado pelo transporte, em inglês TOD), o princípio urbanístico de adensar a cidade ao longo dos eixos de transporte, adotado no Plano Diretor de São Paulo de 2014.  

“Nova York mostrou, ao longo das duas últimas décadas, como usar bem os princípios do TOD, mesmo numa cidade que já é densa. Os mesmos princípios podem ser usados por outras cidades como São Paulo.

A questão das periferias com transporte deficiente, porém, é um desafio. É possível que os transportes compartilhados possam ser uma opção para essas áreas, mas é preciso pensar em soluções de massa para integrar essas pessoas à cidade.”

O futuro do comércio de rua como componente da vitalidade urbana

“Acho que as lojas físicas podem ser bem sucedidas se elas investirem no componente da experiência da compra. Em outras palavras, o comércio precisa oferecer alguma razão para que as pessoas saiam de casa. Produtos estão chegando à nossa casa sem esforço algum do comprador; portanto, a única razão para ir ao supermercado é se nós criarmos novas experiências.

Quando nós desenhamos o nosso “Supermercado do Futuro” na Expo 2015, nós tentamos criar niovas experiências contando a história por trás de cada produto e envolvendo o consumidor nessa história. Uma imagem que eu sempre gostei é a do personagem Palomar, criado pelo escritor italiano Italo Calvino. Palomar está numa queijaria em Paris e tem a impressão de estar num museu ou numa enciclopedia:

‘Essa loja é um museu; Palomar, visitando-a, sente como se estivesse no Louvre, atrás de cada objeto está a presença de uma civilização que deu forma a ele e que tira sua forma dele’.

As lojas físicas vão sobreviver se elas conseguirem virar algo como uma versão dessa queijaria parisiense. Ou, pelo menos, trazer novas experiências às pessoas.”

O futuro da vida nas ruas na cidade digital

“Claro que as cidades do futuro terão uma vida pública vibrante! O digital não substitui várias experiências do mundo físico, incluindo nosso desejo de encontrar e namorar outras pessoas.”

Sobre o objeto “cidade”. Será que, com o crescimento sem fim e a conurbação das cidades, o novo problema não está na escala da região metropolitana?

“Sim, você está certo. Hoje, as cidades não são mais aquelas entidades muradas que a humanidade construiu na Idade Média. Naquela época, era muito fácil detectar a diferença entre o que estava dentro e o que estava fora da cidade.

Hoje, as cidades ou metrópoles são um “bicho” muito diferente: policêntricas (como meu amigo Sir Peter Hall teria dito) e permanentemente apagando as fronteiras com o campo.

Uma das possibilidades de lidar com a nova escala da cidade é usar o Big Data melhor. Na Inglaterra, usamos os dados de telecomunicações para entender melhor a estrutura das regiões e da metrópole. Acredito que estudos semelhantes possam nos ajudar a entender melhor a metrópole contemporânea – e a sua governança.”

 

Foto: Divulgação

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