Nossa partida de xadrez contra o vírus

Parece que a maior consequência do medo do vírus está naquilo que tínhamos de mais importante nas cidades: o encontro. É muito triste perder aquilo que demoramos tanto a começar a experimentar, a pluralidade vivida coletivamente. Talvez seja a lembrança de milhares de pequenos encontros, de pequenas felicidades cotidianas o que nos permita transcender as limitações do tempo que passamos por aqui.

 

O jogo de xadrez entre o cavaleiro e a Morte, em “O Sétimo Selo”

 

Até agora, parecia que poderíamos viver sem pensar no vírus.

 

Após o Carnaval de multidões nas ruas, o ano parecia finalmente começar a sério, as pessoas estavam voltando a falar de seus planos de trabalho, viagem, exercícios, desejos e tudo o mais que normalmente as pessoas planejam fazer mesmo que desistam depois.

 

Agora, porém, uma nuvem escura parece ter pousado nas notícias, nas bolsas, nos planos. A expectativa de uma crise mundial já chegou à vida cotidiana. Eventos e congressos são cancelados, passageiros fogem dos aviões, times jogam para estádios vazios na Europa, escolas fecham por precaução no Brasil.

 

Parece que a maior consequência do medo do vírus está naquilo que tínhamos de mais importante nas cidades: o encontro. Será mesmo que teremos que evitar a escola, os escritórios, os shows, a rua? Diante da perspectiva de ficarmos meses fugindo das aglomerações e de outras pessoas, comecei a pensar nas doenças e na morte.

 

Na década de 1980, a Aids trouxe um fantasma que ainda não sumiu e que nos afastou uns dos outros.

 

Exatamente um século atrás, a gripe espanhola matou milhões no mundo e no Brasil. Quando acabou, contaram-se as mortes e o Carnaval do Rio de 1919 é descrito por Ruy Castro como uma festa dionisíaca de alívio e celebração da vida. Mas nada parece ter sido tão ameaçador como a Peste Negra, que dizimou quase um terço da população da Europa medieval.

 

Não havia para onde escapar, a não ser na ficção. Em O Decameron, alguns amigos fogem da peste e se reúnem numa vila nas montanhas, onde cada um conta uma história a cada dia. O livro de Boccaccio é satírico e iconoclasta, o que aparece vividamente na versão de Pasolini para o cinema, na década de 1970. A fuga do horror se dá pelo humor.

 

Mas a inexorabilidade da morte aparece mesmo é no filme O sétimo selo, de Bergman, com Max Von Sidow, que morreu há poucos dias.

 

No filme, que é recorrente na lista dos melhores filmes de todos os tempos, Sidow faz o papel de Antonius Blok, um cavaleiro que ao voltar das Cruzadas, encontra sua terra assolada pela Peste. As pessoas morrem em toda a parte e os corpos são levados em carroças. Os que escapam rezam, se açoitam, tornam-se violentos, lascivos, ou, como Blok, procuram um Deus, o sentido, um sentido.

 

A Morte o encontra, mas ele consegue adiar sua hora final, desafiando-a para uma partida de xadrez. Se ganhar, estará livre. Essa é uma das cenas mais icônicas da história do cinema, as duas figuras duelando na praia, o mar escuro ao fundo. O cavaleiro não teme a morte, mas busca encontrar o sentido das coisas antes de partir. Busca ganhar tempo e viver mais. Como todos nós.

 

A busca pelo sentido parece ter fim quando ele encontra um casal de atores mambembes que gira pelos vilarejos fazendo graça e ganhando a subsistência. Eles o recebem com carinho e oferecem o que tinham: leite e morangos. Ao sol meigo do poente, eles comem juntos, enquanto o filho do casal dorme na carroça. É nesse momento que o cavaleiro se dá conta de estar vivendo um momento transcendente.

 

“Eu vou me lembrar desse momento de paz. Os morangos, o leite. As faces de vocês ao sol poente. O pequeno Michael dormindo na carroça. Joseph tocando sua flauta. Eu vou lembrar das suas palavras e vou guardar essa memória tão cuidadosamente quanto estou segurando essa bacia de leite agora”.

 

A cena é arrepiante, de tão bonita. O cavaleiro que buscava Deus através das grandes perguntas, intui o sentido  num momento pequeno, de encontro casual. A partir daí, sua estratégia de atrasar o jogo não é mais para ganhar tempo para si, mas para os outros. A família de artistas, o pequeno Michael, isso é o que passa a importar.

 

Cada um de nós tem sua busca, encontraremos o sentido ou aceitaremos a falta de sentido, mas o cavaleiro medieval parece encontrar  a paz ao compartilhar comida e carinho com outras pessoas.

 

O encontro entre as pessoas pode nos ajudar a encontrar sentido, seja na relva da ravina sueca, seja no piquenique do parque do Ibirapuera, seja tomando leite numa tigela ou cerveja num bar de Santa Cecília.  Talvez não O Sentido, mas ALGUM sentido.

 

Talvez seja a  soma de milhares de pequenos encontros, de pequenas felicidades cotidianas o que nos permita transcender as limitações do tempo que passamos por aqui.

 

Moramos numa cidade difícil, desigual, que às vezes nos afasta, mas que nos últimos anos tem estimulado as pessoas a se encontrarem. Hoje vemos multidões no Carnaval, vemos estádios cheios, shows ao ar livre, vizinhos que fecham a rua para fazer festas juninas, gente se beijando pelas calçadas, amigos se encontrando nos bares, estranhos tropeçando na Paulista.

 

Seria muito triste perder aquilo que demoramos tanto a começar a experimentar, a pluralidade vivida coletivamente. Que a doença passe logo, que a gente possa represar essa vontade de estar ao lado de quem gostamos ou de quem nem conhecemos e que não precisemos fechar tudo para escapar do vírus.

 

A gente sabe que no jogo de xadrez contra a Morte, o máximo que podemos fazer é adiar o final para talvez chegar aos 90 anos que Max Von Sidow viveu e carregar memórias vívidas das pessoas com quem compartilhamos morangos e leite à luz cálida do sol poente.

 

3 comentários sobre “Nossa partida de xadrez contra o vírus”

  1. Bonito post, Mauro. Os benefícios da pluralidade vivida coletivamente já foi percebida por muitos. Não haverá retrocesso. Apenas um prudente e sábio recuo . E, como dizia o saudoso Chico Xavier: “Isso também vai passar”.

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