O homem que apagou o grafite do Beco do Batman ajudou a revelar o conflito entre o público e o privado

Foto: Amanda Perobelli/Estadão
Foto: Amanda Perobelli/Estadão

As redes sociais começaram o dia febris. O beco do Batman havia sido atacado. Diante do cinza que substituiu as cores dos grafites, pensou-se imediatamente numa ação da prefeitura. Mas a realidade mostrou-se muito mais banal. Um homem resolveu apagar as pinturas do muro de sua casa.

Chamado no jargão despersonalizador da mídia de “aposentado”, João Batista da Silva morador da região há anos, ex-auxiliar de enfermagem, veio a público e disse que estava cansado da bagunça dos turistas, fotógrafos, visitantes e até músicos durante o dia, mas principalmente à noite, chamou seu filho e juntos pintaram a parede.

Candidamente, revelou que a cor escolhida não guardava relação nenhuma com o cinza que caracterizou a ação da prefeitura na 23 de maio: “eu ia comprar o marrom, mas o vendedor sugeriu cinza chumbo, para cobrir melhor”. Superada a metáfora da cor, a brincadeira passou a ser a óbvia porém pouco inspirada associação do seu nome com o do prefeito, e ele foi chamado de “João” , despersonalizando-o ainda mais.

A ação privada desembocou numa reação pública. Seu muro, afinal, é parte da paisagem urbana e, como tal, pensarão alguns, pertencente a todos. No mesmo dia, seu novo muro cinza chumbo foi pichado e repichado. Numa reviravolta inesperada, revelou-se depois que ele mantinha relações cordiais com os grafiteiros há anos. Um deles, Binho Ribeiro, numa entrevista de uma racionalidade tocante e exemplar explicou que, mesmo triste por ter sua obra apagada, entendia e defendia a ação do dono do muro que exibia sua obra.

O prefeito regional, instado pelo prefeito da cidade entrou em contato.  Aparentemente satisfeito com a atenção dada ao seu problema, João Batista declarou que vai aceitar a pintura de volta, mas exorta os turistas a pensarem no seu problema.  “Todo mundo ganha dinheiro com a atenção dada ao beco”, diz ele, o que justifica pensar em alternativas em que outros não percam.

A história é muito boa e revela de modo exemplar o conflito inerente à ocupação do espaço público. Não há ocupação sem conflito e não há resolução do conflito sem mediação, principalmente do poder público.

Na Roosevelt, skatistas disputam espaço com mães, cachorros e colegiais. No carnaval, moradores querem sair de casa sem pisar numa poça de xixi. No beco do Batman, João quer dormir tranqüilo à noite.

O singelo desejo privado não parecia ter encontrado interlocução. Por alguma razão, João Batista não havia sentido capacidade de influenciar a prefeitura a dar atenção ao seu problema. É possível que uma conversa pudesse ter sido suficiente para reduzir a luz do poste que incomoda. Talvez não. A ação mais incisiva obteve a repercussão que ele desejava, mas talvez a reação tenha sido mais violenta do que o esperado.

João Batista foi corajoso ao gastar 200 reais na tinta e cobrir o muro à luz do dia. Enfrentou com aparente tranqüilidade a onda midiática que se formou imediatamente.

Esperamos, como sociedade, que amanhã, haja autorização dele para uma nova pintura embelezando o muro, mas também exortamos os  visitantes a diminuir um pouco o volume da gritaria, se abster de tocar música alta e evitar visitas noturnas.

Hoje sabemos que o dono do muro que encanta multidões também tem nome, precisa dormir e investiu 200 reais e muita coragem para que nos déssemos conta disso.

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