O periquito africano do realejo era uma menina. E se chamava Catarina.

O homem, o realejo e Catarina. Foto: Mauro Calliari
O homem, o realejo e Catarina. Foto: Mauro Calliari
O homem, o realejo e Catarina. Foto: Mauro Calliari

O homem do realejo se aproxima da mesa do bar, num sábado de manhã numa calçada da Vila Madalena.

Ele está sempre por ali, tocando a musiquinha com sabor de outro tempo.De fato, o instrumento tem 120 anos. O criador original da geringonça, um italiano, passou a alguém que foi passando de geração em geração até chegar ao dono atual.

Quem será que ouviu essa mesma música que ouvimos agora, em 1896?

Pergunto quem escreve os pensamentos impressos nos papeizinhos e descubro que se trata de “um italiano”.

Animo-me a ler a sorte: ela terá sido escrita por escritores italianos!

Que sabe, serei contemplado com uma frase cáustica do Decameron que me incite a dessacralizar as instituições constituídas. Ou talvez receba de Dante informações privilegiadas sobre um dos círculos do inferno. Talvez, se a sorte vier a meu favor, tenha à minha frente uma daquelas inspiradoras descrições do Italo Calvino sobre as cidades invisíveis, em que o sagaz Marco Polo descreve as cidades do reino mongol ao poderoso Kublai Kahn que me farão entender nossa cidade e todas as outras.

Preparo-me para ganhar um ingresso para uma vida nova, um insight definitivo.

Catarina pega gentilmente o papelzinho, com o bico.

Recebo o “Pensamento número 15”.

“Em pouco tempo o teu destino porte-á numa situação muito elevada.”

Porte-á? Bem, a tradução inacabada de um dialeto italiano do século XIII talvez possa jogar luz sobre meu destino. Uma situação elevada, nada mau …

“Por seus serviços honrados terá V.Sa. riquesas,  porém, com muitos pesares.”

Ser tratado de V.Sa. já merece minha atenção. Não me lembro de alguém ter se dirigido a mim com tal deferência. Relevo o erro de ortografia das minhas “riquesas”. Elas serão metafóricas, decido. Tenho certeza de que não é de dinheiro que se trata, é de algo mais elevado: o saber, a serenidade.

Mas calma, isso não virá sem pesares. Claro, isso faz sentido; a busca pela felicidade não poderá prescindir de trabalho, de suor, de percalços. Animo-me com o meu Boccaccio, com meu anônimo Dante e parto firme para a minha iluminação.

“Poderá V.Sa. vencer todas as contrariedades com muita severidade”.

Sim. Sim. vencerei as contrariedades. Mas com severidade. Afinal, o percurso não é fácil, banal.  É preciso determinação e firmeza para buscar os objetivos. Estou animado agora, decidido a enfrentar com severidade essa jornada. Mas, atenção, os obstáculos não são apenas metafóricos. Há as pessoas:

 “Uma pessoa de sua confiança o enganará com falsas intrigas”.

Humm. Isso é indignante. Quem poderá estar tramando tal desfeita contra mim? Falsas intrigas! Estou furioso. Começo mentalmente a investigar as pessoas que conheço. Traço estratégias de defesa, não posso deixar que uma baixeza dessas atinja a felicidade que se insinuava. Mas calma, nosso e o escritor italiano, nosso oráculo da bota, joga mais uma última frase e traz a solução.

“Se cuidas no porvir a sua fortuna será segura”.

Nosso Dario Fo, nosso Pirandello desconhecido encontrou, na sua tradução barroca, a resposta para os meus problemas.

Sim, cuidarei do porvir. Farei planos, pensarei no futuro, mas cuidarei de não fechar os olhos às surpresas da vida. Enfrentarei as inevitáveis traições, mas manterei o coração aberto às surpresas maravilhosas.

Em paz com meu futuro, volto às empanadas e à conversa. Falamos de coisas e de pessoas. Mas penso secretamente na Catarina, a periquita africana que trabalha ao som do instrumento italiano e distribui pensamentos tão inspiradores num sábado de manhã na Vila Madalena.

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