O prazer de sair pela primeira vez às ruas de uma cidade desconhecida.

O Duomo, em Milão.

“Tomar um banho excelente num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E aconterem.” Rubem Braga, em As melhores coisas da vida.

O Duomo, em Milão.
O Duomo, em Milão.

Talvez a cidade seja Londres. Você vai sair do hotel, andar alguns quarteirões até encontrar um pub aconchegante, cheirando a madeira e fumo. Nele, um grupo de engravatados parecem comemorar as vendas da semana, outro grupo com camisas do Arsenal está com os olhos grudados na TV, mas há alguém encostado no balcão, com uma expressão calma e um olhar confiante. Você se aproxima, experimenta um copo de Guinness. A noite termina numa praça enevoada, de madrugada.

Talvez a cidade seja o Rio de Janeiro. Na linda noite quente e úmida, você se vê na Lapa, bem embaixo dos arcos. As pessoas se olham. O contato é fácil. Quase sem pensar, você está dançando uma música que talvez seja samba, mas talvez não seja, com alguém que nunca viu na vida. A chuva vem, forte, a luz acaba e você passa a madrugada conversando sobre bondes, música e vizinhas machadianas à luz de vela.

Talvez a cidade seja Cusco. Depois de beliscar umas comidinhas cujo nome você não guardou mas que certamente são feitas de milho, você começa a caminhar pelas ruas vazias, cada vez mais longe da praça de Armas. A música some e você começa a perceber a cidade à sua volta. Com espanto, você nota que por baixo dos prédios coloniais espanhóis há pedras das construções incas. Você ouve gritos de guerra e de conquista. A noite termina num banco solitário perto de um muro ancestral. Você pensa  em civilizações que se foram, pessoas que vieram e decide que sua vida vai ter que mudar quando voltar para casa.

Talvez a cidade seja Milão. Você sai de um restaurante feliz, depois de um  risoto diáfano e meia garrafa de um vinho tão bom que fez lembrar de couro, lareiras, e infância. Você anda em meio à névoa espessa na noite fria, um casaco pesado emprestado de alguém, sob as luzes difusas no começo de janeiro. Quando consegue distinguir algum coisa, está diante do Duomo. A Madonina parece flutuar na névoa. Você se prostra e chora, um choro que estava guardado há anos.

Talvez a cidade seja São Paulo. Alguém disse para você ir à Paulista.  Você sai do museu de concreto suspenso, passa pelo parque ainda cheio no final da longa tarde de outono e decide seguir a multidão de pessoas que descem a rua Augusta em direção ao centro. Você entra em todos os bares sem encontrar um lugar vazio. Você decide continuar descendo até que encontra uma praça grande, cimentada. Você evita os skatistas, admira os grupos de estudantes que tocam violão, vê um teatro com um nome sugestivo e entrega sua noite aos Satyros.

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