O Uber ‘silencioso’. Por que uma pessoa adulta paga para pedir silêncio se ela pode fazer isso ao vivo?

 

De um lado, motoristas que são instados a se comportar como máquinas. De outro, pessoas que não sabem conversar com humanos. 

 

 

Na semana passada, ficamos sabendo que o Uber vai lançar uma função para os passageiros que não querem conversa com o motorista enquanto são levados pela cidade.

 

 

Chamada de Uber Comfort, a novidade permite que o passageiro pague um pouco a mais para garantir seu silêncio e para regular de antemão a temperatura do ar condicionado.

 

 

Mas, por que alguém vai pagar a mais para pedir silêncio se ele pode fazer isso ao vivo?

 

 

Na verdade, a relação entre passageiros e motoristas de aplicativos já anda estranha há tempos.

 

 

Quantas estrelas você tem? 

 

 

Tudo começou quando aceitamos um sistema que nos incentiva a dar uma nota ao motorista a cada viagem e vice-versa.

 

 

Claro, há sempre as pessoas de má índole e o sistema poderia simplesmente ter um campo para reportar condutas inadequadas e tirar esses maus motoristas e passageiros incivilizados de circulação.

 

 

Porém, há quem puna o motorista por falar demais, por não oferecer balinha, por parar cinco metros a frente do endereço indicado e por tocar pagode, como se não fosse possível resolver isso numa conversa civilizada.

 

 

Por outro lado, e isso parece ser pior ainda, também os passageiros são avaliados.

 

 

Será que eu posso pedir para o motorista abaixar o rádio que toca pagode furiosamente sem que isso acabe com minha reputação de bom passageiro? Posso atender a uma ligação ou devo ficar atento à conversa? Devo incomodá-lo enquanto ele olha para a telinha e esquece da rua? E se eu precisar pedir para parar numa farmácia, isso vai arruinar minha avaliação?

 

O episódio de Black Mirror “Nosedive”, em que a avaliação das redes sociais determina se alguém pode usar um serviço ou entrar num clube, já começou.

 

 

O futuro dos carros sem pessoas

 

 

Talvez esse seja mesmo o primeiro passo em direção ao futuro: os carros sem motorista, que não têm os inconvenientes dos humanos. Ele já estão rodando por aí, em testes nos Estados Unidos, Europa, China e Japão. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio, carros sem motoristas vão levar  atletas até as competições e visitantes vão interagir com robôs que falam várias línguas.

 

 

Em vez de conhecer uma pessoa japonesa, de carne e osso, com sotaque, maquiagem, história e sorrisos, o turista vai conversar com uma traquitana falante. O problema é que talvez alguns achem isso muito melhor.

 

 

Pessoas que delegam a resolução de problemas ao aplicativo talvez não aprendam a negociar

 

 

Existe uma pequena doença implícita nessa mudança: a dificuldade crescente das pessoas de conviver com  diferente, a diversidade e as situações inesperadas que o convívio traz.

 

 

O sociólogo Richard Sennett definiu a cidade como um lugar onde pessoas diferentes convivem cotidianamente.

 

 

Essa convivência é difícil mas essencial para desenvolvermos nossa própria identidade.

 

 

No momento em que saímos de casa, aprendemos a nos orientar na cidade, a se relacionar com lojistas, a trocar impressões com alguém no ponto de ônibus, a detectar situações de perigo, a encontrar pessoas interessantes e repartir histórias.

 

 

Ora, no momento em que não precisamos mais falar com ninguém, talvez nossa própria identidade esteja ameaçada. Seremos como crianças que não sabem negociar ou têm medo da complexidade e do contato.

 

 

É claro que existem dias em que a gente não quer conversar. Mas mesmo nesses dias, se você entra num taxi, ou no barbeiro, na fisioterapia, em até em casa, com a família, vai ter que ser capaz de argumentar com uma pessoa e explicar que você está cansado ou que teve um dia difícil pedir um pouco de silêncio.

 

 

Eu adoro cortar o cabelo sem falar com ninguém, mas não trocaria nunca o barbeiro por um robô mãos-de-tesoura japonês. É do jogo da convivência a gente aprender a lidar com gente diferente. Quando pagamos para uma pessoa ficar quieta (sim, o Uber Comfort vai custar 20% a mais), estamos deixando de aprender a conviver e a conversar com nossos próprios argumentos.

 

 

E, por outro lado, cadê as surpresas? Quem disse que uma conversa inesperada e inicialmente indesejada não pode trazer um prazer inesperado?

 

 

Sim, dá trabalho conversar com outras pessoas, explicar, negociar, contornar, hesitar, errar e acertar. Mas essa é a essência dos contatos fortuitos e uma das bases da convivência nas cidades.

 

 

Passar por cima das idiossincrasias dos outros pode ser apenas um caminho para começarmos a preferir a companhia de um celular à de um ser humano.

 

 

 

 

Um comentário sobre “O Uber ‘silencioso’. Por que uma pessoa adulta paga para pedir silêncio se ela pode fazer isso ao vivo?”

  1. Mauro, eu pagaria para poder falar e, por exemplo, ouvir, não as dificuldades do ex-piloto da Avianca, que agora dirige no Uber, mas também é plantonista imobiliário, mas sobre fatos da aviação, principalmente de um ex-comandante de Boing.

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