Operação Urbana Faria Lima. Depois de 22 anos e R$ 1,8 bilhão, muitas avenidas e pouca urbanidade.

Edifício comercial na Av. Faria Lima. Foto: M.Calliari
Edifício comercial na Av. Faria Lima. Foto: M.Calliari

Grande parte da área urbanizada de São Paulo funciona sob regras especiais: é o território das operações urbanas. Elas surgiram para induzir o desenvolvimento em regiões específicas e são responsáveis por captar e investir recursos, vindos de outorga onerosa e da emissão dos CEPAC´s.

Mas, que tipo de cidade está sendo produzido nesses lugares?

Para começar a responder isso, vale a pena conhecer a Operação Urbana Consorciada Faria Lima, uma das mais antigas e bem sucedidas. Iniciada em 1995*, já gerou R$ 1,8 bilhão de reais em recursos.

O balanço divulgado pela prefeitura na última reunião de acompanhamento pode dar uma pista das prioridades nesse tempo todo.

Fonte: Site Prefeitura, retrabalhada pelo autor.
Fonte: Site Prefeitura, retrabalhada pelo autor.

Do viário ao espaço público

A tabela mostra uma prioridade clara: as intervenções viárias. Não só nos dois túneis construídos sob a Faria Lima, mas no sistema ao redor do Largo da Batata e em grande parte das desapropriações.

Mas é interessante notar como isso está mudando.

Ciclovia na Av. Faria Lima. Foto: M.Calliari
Ciclovia na Av. Faria Lima. Foto: M.Calliari

No início, quase tudo o que se gastava era em túneis e avenidas, mas nos últimos anos, começou-se a direcionar parte dos recursos para habitação social (por causa de uma mudança na lei), estações de metrô e até para as ciclovias. Daqui para a frente, estão previstas duas ligações de bicicleta e pedestres por cima do Rio Pinheiros, em fase de planejamento.

Novos bancos.
Largo da Batata. Foto: M. Calliari.

As obras do largo da Batata também contam um pouco dessa história. O projeto inicial foi descaracterizado e a grande praça foi lançada com acabamento pobre, sem verde e sem mobiliário urbano. Aos poucos, isso está sendo refeito. Ao redor do largo, as ruas mirradas foram alargadas para dar vazão aos ônibus e carros que vão até o terminal Pinheiros.

Para o pedestre, pouco.

Se a circulação de carros ganhou prioridade, a circulação de pedestres ainda carece de sensibilidade às necessidades de segurança, conforto para o andar e acesso às estações.

O difícil acesso dos pedestres às estações. foto: M.Calliari
O difícil acesso dos pedestres às estações. foto: M.Calliari

Parece incrível, mas depois de tantos milhões os tais “terminais intermodais” não se relacionam bem com a cidade. Para quem vem à pé ou de bicicleta, é pior ainda.

O difícil acesso dos pedestres à estação Pinheiros. Foto: M.Calliari
O difícil acesso dos pedestres à estação Pinheiros. Foto: M.Calliari

Há postes, escadas e interdições nos trajetos dos pedestres, o ciclista é obrigado a fazer um cadastro burocrático para deixar a bicicleta na estação e a disposição das faixas de pedestre nos terminais não impede os motoristas de ônibus de sair em disparada. Mesmo o estacionamento de carros na estação do metrô de Pinheiros (que em tese estimula os motoristas a deixarem o carro e pegarem o metrô) é pouco funcional e fecha duas horas antes do fim da circulação dos trens.

Avanços

Por outro lado, há avanços: a ciclovia da Faria Lima é hoje usada por uma média de mais de 2 mil pessoas. Há até um contador de bicicletas perto da rua Pinheiros; quando passar por lá, dê uma olhada e pense quantos carros estão deixando de circular graças a ela.

As calçadas dentro do perímetro da operação melhoraram, porque foram feitas linearmente, ao contrário das calçadas em regiões “normais”, mas já estão precisando de manutenção e de completar o serviço.

Há algumas poucas e boas surpresas, como por exemplo a pequena rua Guaicuí que teve as calçadas de seu único quarteirão aumentadas, criando um local simpático e que já está atraindo bares e comércio.

Reurbanização de favelas

Finalmente, nos últimos anos o leque de destino dos recursos se ampliou. Desde que houve uma alteração na lei, parte do dinheiro arrecadado deve obrigatoriamente ir para os projetos de reurbanização de favelas, como as do Coliseu, Panorama e Real Parque, que não estão necessariamente no perímetro da operação mas que foram incluídas e, apesar dos avanços serem vagarosos, estão sendo acompanhadas pelo Grupo Gestor.

Acompanhamento da população

Um dos aspectos mais interessantes da operação urbana é justamente o Grupo Gestor, um grupo de pessoas que se reúne bimestralmente para formalizar as decisões e acompanhar os resultados, coordenados pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano (que agora mudou de nome e se chama SMUL).

Essas pessoas representam as associações, academia e grupos ligados às obras, mas, num reflexo de outros tempos, contém poucos representantes de moradores, apenas os das comunidades envolvidas. A operação urbana Bairros do Tamanduateí, uma das mais recentes, ainda em estruturação, prevê a presença de representantes dos moradores nesse grupo.

A indução à cidade

E o que se pode dizer dos prédios que foram construídos na região? Os CEPAC´s foram disputados em leilões e hoje já há pouca disponibilidade – os tais “estoques” – para novos empreendimentos residenciais e quase nenhuma para comerciais.

Há obras em andamento, mas já dá para dizer que a configuração dos prédios parece não ser a melhor para a cidade. Com projetos aprovados antes dos incentivos do plano diretor ao uso misto (e com legislação própria), os prédios de escritório seguem o modelo da torre cercada, isolando-se da rua.

No largo da Batata, por exemplo, está prevista a construção de mais um empreendimento enorme, que poderia oferecer a tal “fruição” do térreo, entre o largo e o Mercado de Pinheiros, por exemplo, mas que ainda está sendo discutida pelos donos e infelizmente talvez traga mais um muro a cercar a praça.

Os edifícios residenciais também parecem grandes demais, altos demais para as ruas estreitas, e mal distribuídos no território. Possivelmente, pesquisadores vão poder comprovar isso no futuro, mas o aumento e densidade talvez pudesse ser atingido com mais prédios menores ao longo da região.

De qualquer modo, há muito a estudar sobre os resultados mas é interessante pensar que, como “indutora” de desenvolvimento, a operação urbana pode fazer muito mais pela cidade do que já fez. Há outras obras em curso e ainda dá tempo de pensar mais em espaços públicos do que no viário a partir de agora.

Reunião do Grupo Gestor da Operação Urbana Faria Lima, março de 2017. Foto: M.Calliari
Reunião do Grupo Gestor da Operação Urbana Faria Lima, março de 2017. Foto: M.Calliari

O presidente da SP Urbanismo, José Armênio de Brito Cruz, comentou essa mudança após a última reunião de acompanhamento da Operação Urbana: “Os tempos estão diferentes. Talvez hoje não tivessem sido construídos os túneis sob a Faria Lima, por exemplo. Hoje, há mais preocupação com o espaço público do que antes”.

Essa é uma constatação auspiciosa, que talvez ajude a direcionar melhor os recurso que ainda faltam investir nessa e nas outras regiões atingidas pelas operações urbanas.

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