Os meus amigos caminhantes. Se você quer conhecer uma pessoa, ande ao lado dela.

Caminhar ao lado de alguém é um jeito ótimo de conhecer as pessoas.

Aprendi que o caminhar revela muito sobre como escolhem o roteiro, o ritmo de andar, o que elas olham e o que comem.

Fiz o teste com meus amigos, que conheço há muitos anos e com quem ando pela cidade e constatei: eles, de fato, caminham do mesmo jeito que são.

O caminhante meticuloso – Tenho um amigo que é sereno, calmo, decidido. Caminhar com ele significa escolher antes um roteiro, um lugar de chegada e combinar um horário para voltar. A conversa é ótima; vamos abrindo janelas de assuntos diferentes sem medo de não fechar algum, enquanto cruzamos ruas, pontes, viadutos. Caminhar com ele significa andar rápido, ir longe e falar de tudo.

O caminhante aventureiro – Esse amigo é daqueles que gosta de viver intensamente, cada ação é um prazer, cada trabalho uma chance de conhecer pessoas e um desafio que ele precisa vencer. Caminhar com ele significa abrir-se para a cidade e estar preparado para tudo. Na sua mochila, há de tudo. Se chover, ele terá uma capa. No sol, ele põe óculos escuros, um boné e vai em frente. Prédios, bairros, pessoas, a cidade é um palco para as suas histórias: “nessa rua, eu morei, naquela eu namorei, na outra, fui assaltado”. Em todo canto, há uma lembrança, uma história. Com ele, a caminhada é sempre uma experiência sensorial.

O caminhante curioso – Esse querido amigo olha para o mundo com candura e curiosidade. Ele faz perguntas, quer saber, quer detalhes, se embrenha nas histórias de cada um. Caminhar com ele é uma garantia de que vamos explorar a cidade. Teremos que parar em todas as vitrines estranhas, provaremos o abacaxi em fatias no Largo do Paissandú e o doce japonês na feira da Liberdade. Desceremos escadas íngremes e subiremos qualquer ladeira que vai dar em algum lugar só porque lá em cima “deve ter uma vista boa”. Para ele, nunca, em hipótese nenhuma devemos perder tempo com caminhos conhecidos. Com ele, a caminhada e a vida é isso: sempre em frente, sempre coisas novas.

O caminhante hiperativo – Esse amigo raramente anda conosco. Ele é uma daquelas forças da natureza, sempre em movimento, sempre agitando três programas ao mesmo tempo, enquanto olha para três telas de celulares ao mesmo tempo. Caminhar com ele é um prazer raro, mas quando ele aparece, liga minutos antes para avisar que não sabe se vai. De repente, lá no meio da Mooca, ele emerge de um úber, uma moto ou uma carona e entra na caminhada já contando casos. Antes de chegarmos algum lugar, ele já terá sumido, atrasado para algum outro compromisso.

O caminhante tranquilão  – Esse cara está sempre de bem. Ele faz suas escolhas com calma e depois se entrega aos programas com a tranqüilidade de quem sabe que tudo vai dar certo. Caminhar com ele é saber que qualquer roteiro vai estar bem, e que qualquer bar vai servir para tomar uma cerveja lá no fim da caminhada. Ele anda com calma, mas vai longe. Ele só não gosta de uma coisa: andar no centro de São Paulo aos domingos. Diz que tem cheiro de xixi, o que, no fundo no fundo, é verdade.

O caminhante-guru – Na vida pessoal e profissional, é um líder nato. Clientes o procuram para falar de estratégia, amigos querem conselhos sobre planos de saúde, problemas familiares, dinheiro. A caminhada sempre começa na sua casa, quase naturalmente. Seus passos são pesados, oscilando de um lado para outro enquanto faz perorações. Caminhar com ele é andar devagar, enquanto embarcamos em conversas longas e trajetos curtos. Entre e digressões sobre a cidade e a vida, acabamos andando alguns poucos quilômetros, mas não importa. A caminhada com ele sempre faz a gente pensar em coisas que nunca pensou.

O caminhante indeciso – Esse sou eu. De acordo com meus amigos, o meu caminhar também reflete minha personalidade. Não sei bem se é verdade, mas deve ser. Sofro um pouco a cada esquina, a cada decisão de que rumo seguir, mas adoro o ruído dos pés nas calçadas. Reclamo do barulho da TV na padaria, da buzina de uma moto e da sujeira do rio, mas adoro me perder na multidão, seguir em frente, surpreender-me com uma pracinha onde há uma mulher com duas crianças que brincam, chegar a um rua que tem um nome que eu nunca ouvi. Ao final de horas andando, nada é melhor do que sentar numa cadeira, ver as pessoas passando e terminar a conversa assim, com a calma de quem já tomou posse da cidade e dos amigos …

Se você quer conhecer uma pessoa, ande ao lado dela.

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