Porque o livro de Jane Jacobs, escrito em 1961, ainda é essencial para analisar a São Paulo de hoje

Semana passada foi comemorado o dia de aniversário de Jane Jacobs, a jornalista e ativista americana, que é frequentemente considerada a urbanista mais influente da história.
Seu livro “Morte e vida das grandes cidades” foi um divisor de águas no pensamento sobre cidades. Foi escrito em 1961 mas ainda hoje é leitura obrigatória para quem pensa na cidade a partir do ponto da urbanidade, do convívio e do cotidiano.
Algumas noções continuam tão atuais que é irresistível tentar trazer algumas delas para a São Paulo de hoje:
O balé das calçadas – Jacobs descreve saborosamente a atividade cotidiana das calçadas de seu bairro, em Nova York e chama isso de “balé”, o  balé que acontece na calçada de seu quarteirão: ao longo do dia, os estabelecimentos comerciais vão sendo abertos, as pessoas se encontram, conversam, pedem favores. Crianças brincam, vigiadas pelos “olhos da rua” [definição logo adiante]. Gente que está nos prédios participa da rua. Estranhos aparecem, interagem, passam. Em alguns bairros de São Paulo ainda se vê essaa dinâmica diárias das calçadas, lojistas que abrem seu comércio e varrem a rua, crianças que passam em direção à escola, moradores que se encontram. Esse olhar carinhoso sobre a rua é uma das marcas de JJ e funciona como uma referência poderosa de urbanidade. A perda desses encontros é, provavelmente, um sinal de doença da cidade.
A importância da diversidade de usos e frequentadores – Pessoas diferentes fazendo coisas diferentes em horários ajudam a dar a viabilidade econômica ao comércio e vitalidade às calçadas. Uma loja que só atende pessoas que saem do trabalho provavelmente vai ter dificuldades em se manter. Da mesma maneira, ela insiste num tema que está atualíssimo em São Paulo: a necessidade de prédios novos e velhos conviverem na mesma rua. Isso traz a possibilidade de pessoas que pagam aluguel baixo conviverem com outras de alta renda. Pragmática, Jacobs não propõe a convivência indistinta entre todos, mas justamente a capacidade de estar no mesmo espaço com civilidade. A mistura também é boa para gerar movimento nas ruas e para induzir atividades econômicas complementares. Por aqui, o uso misto é falado e decretado no Plano Diretor, mas seus indutores, seus efeitos e principalmente seus conflitos, pouco discutidos.
A noção de rede – Não adianta ter um parque perto de casa se o caminho até ele não é amigável. Jane Jacobs  lembra de algo que está sendo muito discutido agora por pessoas dos movimentos de pedestres, é preciso ter uma “rede de mobilidade a pé”, sem o que não é possível acessar parques, praças e calçadas de outras ruas. Nada mais atual em São Paulo, onde quase 70% dos deslocamentos envolvem o andar e onde as pessoas tropeçam em degraus, caem nos buracos ou são ameaçadas pelos carros nas travessias mal-sinalizadas.
O questionamento ao carro – A década de 1960 marcou o início do questionamento do domínio espacial dos carros na cidade, em algumas cidades dos EUA e da Europa. De lá para cá, é possível ver em Nova York, Copenhagen ou São Francisco o efeito positivo dessas mudanças. Aqui, a discussão ainda está apenas começando.
Manual de calçadas de Nova York
Segurança – Gente na rua aumenta a segurança, prédios baixos e conectados à rua aumentam a segurança.  Mas como lidar hoje com a configuração de prédios com cinco andares de garagem, murados, que se escondem da rua, tão frequente em São Paulo? Questão atualíssima, com algumas boas respostas de poucos empreendimentos especialmente felizes em “conversar” com a rua.
A escala humana – A maior contribuição de JJ é, possivelmente, a adoção incondicional do ponto de vista da pessoa em relação à cidade. O mote foi adotado posteriormente por vários urbanistas, como Jan Gehl, e é uma régua poderosa para avaliar a qualidade de nossas cidades. Em vez de olhar para a cidade de cima, como numa maquete ou num mapa, olhar a partir de quem está nas ruas.
Participação e ativismo – Em 1962, Jane Jacobs se junta ao grupo de ativistas que conseguiram barrar a construção de uma via expressa prevista para cruzar a parte sul de Manhattan. Depois de anos, em 1969, o projeto da LOMEX foi oficialmente extinto.  Curiosamente, logo depois,  São Paulo iria construir o Minhocão, o Rio a segunda fase da Perimetral e Seul, o gigantesco  Cheonggyecheon. Dois desses já foram derrubados…
Minhocão em construção
Limitações – O titulo original do livro era “Morte e vida das grandes cidades AMERICANAS”. Em português, suprimiu-se a expressão, o que pode dar a impressão de que o livro viaja ilimitadamente. Não é o caso, mas, ainda assim, permite um ponto de partida analítico impressionante para compreender o cenário contemporâneo.
 Montagem: http://paxonbothhouses.blogspot.com.br/2018/02/jane-jacobs-life-and-death-of-great.html
Veja também:
Três razões para nos preocuparmos com o espaço público – http://caminhadasurbanas.com.br/3-razoes-para-nos-preocuparmos-com-o-espaco-publico/
O prazer de sair numa cidade desconhecida – http://caminhadasurbanas.com.br/o-prazer-de-sair-pela-primeira-vez-as-ruas-de-uma-cidade-desconhecida/

Deixe uma resposta