Preciso me lembrar desse dia quando estiver preso

Escrevi essa crônica para um concurso de não-ficção da USP, em 2018, muito antes de saber que a pandemia levaria vários de nós a ficar em casa durante longos períodos. Achei que as reflexões sobre grandes histórias de prisioneiros – e  as viagens pela memória de Papillon, principalmente – poderiam ser inspiradoras agora em mais um esforço de quarentena.

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Sempre fui fascinado pelas histórias de pessoas que estiveram na prisão.

Reais ou imaginárias, as sagas dos prisioneiros em busca de sentido diante dos muros e da perda da liberdade me seduziram desde criança.

Lembro da leitura claustrofóbica de O conde de Monte Cristo, acompanhando a perplexidade de Edmond Dantés diante da traição que sofrera, enfurnado numa masmorra no castelo de If. A miséria da solidão só seria mitigada após o seu encontro com o abade Faria, que, além da boa e necessária conversa, ainda ensinou filosofia, história, química, e principalmente, o esgrima, tão útil para sua vingança posterior. Li o livro na adolescência e, com tantos personagens, acabei esquecendo quase tudo que vem depois da prisão. Mas ainda sou capaz de lembrar vivamente do desconforto físico da cela, assim como da sensação de alívio pela fuga espetacular, talvez a mais angustiante de qualquer história.

Não, pensando bem, talvez a fuga mais angustiante tenha sido a do personagem de Shawshank Redemption, filme traduzido no Brasil como “Um sonho de liberdade”, que vi e revi muitas vezes. Andy Dufresne, preso injustamente, ficou anos escavando uma parede, escondendo o buraco com pôsteres de atrizes famosas – Marilyn Monroe e Raquel Welch à frente – até finalmente conseguir escapar, rastejar pela canalização de esgoto e deixar para trás o sofrimento de 19 anos na cadeia.

Na vida real, os relatos mostram que a sobrevivência na prisão é dura, sofrida, e a possibilidade de uma vingança cinematográfica contra os detratores, muito mais remota.

Uma das fugas mais famosas foi a de um prisioneiro da cadeia americana da ilha de Alcatraz, Frank Morris, também contada em filme depois. Até hoje não se sabe se o homem conseguiu sobreviver à fuga no mar. Como turista, visitei, o presídio desativado. Dentro da cela, imaginei-me preso e cheguei a fechar a porta durante alguns minutos, apenas para descobrir que nunca sobreviveria ao cárcere sem janelas, sem luz, sem nada.

A experiência do cotidiano de uma cadeia japonesa talvez seja o oposto da frieza de Alcatraz. Sem querer, encontrei há anos um mangá desenhado de memória por Kazuichi Hanawa, que esteve preso por porte ilegal de armas. O livro impressiona tanto pela beleza do traço e precisão da narração como pelo cotidiano regrado, em que cada mínima falta – não agradecer aos guardas, não organizar os pertences na inspeção diária, não deixar limpo o banheiro – era punida rigidamente. A cultura nipônica da prisão é implacável, a submissão absoluta às centenas de regras de comportamento é uma maneira de lembrar aos presos a vergonha por seus delitos. Em compensação, o preso japonês é tratado sem violência, come bem, dorme em tatames limpinhos e, semanalmente, ainda ganha o direito a um bem-vindo e quentíssimo ofurô.

No Brasil, o ofurô é trocado por um repugnante cano com água fria e o tatame limpinho por um hediondo pedaço de chão. Drauzio Varella, que foi voluntário no Carandiru, interessou-se pelas vidas dos detentos antes e durante a prisão e conta tudo em Estação Carandiru. Escrito anos depois do massacre, o livro me impressionou pela absoluta falta de perspectiva individual de redenção. Não há reflexão possível diante da luta diária pela sobrevivência na cadeia suja, cheia e violenta.

O livro que mais me marcou, porém, foi Papillon, que li na adolescência e jamais esqueci.

Papillon conta a história de Henri Charrière, o condenado à prisão perpétua que ficou famoso pelas várias tentativas de fuga das ilhas-presídio ao largo da costa da Guiana Francesa. A cada fracasso, sua pena ganhava um agravante terrível: a solitária. Privado do convívio dos outros presos, Papillon era jogado numa celinha, com pouca luz, pouca comida, nenhuma janela, insetos. Da primeira vez, foram dois anos. Após a segunda tentativa de fuga, deram-lhe seis anos. Seis anos sozinho, sem falar com ninguém! Seus companheiros de prisão despediram-se dele com a gravidade com que se tratam os condenados à morte.

Aos meus quinze anos, com o livro na mão, tremia ao imaginar os mais de dois mil dias no claustro. Como sobreviver às paredes vazias, à vida vazia, ao risco real de enlouquecer?

Pois Papillon conseguiu iluminar um pouco meu medo da morte em vida. Seu método foi atingir o cansaço físico para liberar a mente. Ele resolveu andar, andar tanto quanto possível, todos os dias.  Depois de cinco passos entre uma parede e outra, ele fazia a volta nos calcanhares e refazia os cinco passos no sentido oposto. Outra volta nos calcanhares e o percurso recomeçava. Horas a fio, cinco passos, volta, cinco passos, volta…

Depois de horas do exercício hipnótico, ele se deitava, colocava um pano sobre os olhos e – maravilha – viajava. O cansaço extremo permitia que ele sonhasse acordado, e revivesse o cotidiano da vida em liberdade, através das suas próprias lembranças. Um dia, por exemplo, ele refez, com todos os detalhes de que era capaz de se lembrar, uma ida ao mercado, talvez em Montmartre, com sua irmã, que acontecera muitos anos antes. Fascinado, acompanhei seu passeio, a descrição das barracas da feira, dos objetos que eram vendidos, das vozes dos feirantes, do sorriso da irmã, do calor do sol… Cada detalhe foi revivido e sorvido pelo homem sozinho em sua cela dentro de um presídio, numa ilha distante dezenas de anos e milhares de quilômetros de suas memórias.

Papillon sobrevive à solitária graças à força de suas lembranças de homem livre.

Anos depois, ele consegue fugir da Ilha do Diabo e passa a viver na Venezuela. Sempre acreditei que tudo o que ele narra no livro fosse verdade e nunca tentei verificar a acuidade das histórias; na França, o romance gerou um debate tremendo, até que alguém criou o termo “romance bibliográfico” ou “bibliografia romanceada” que resolve a dualidade besta entre o verdadeiro e o falso. Para mim, mais importante que isso sempre foi experimentar a força dos bons dias passados em liberdade como remédio para a prisão mental.

Não tenho a perspectiva de ser preso, na verdade, mas decidi que, se algum dia isso acontecesse – uma briga, uma discussão no trânsito, um contrato não cumprido por esquecimento, ou mesmo uma vingança de um ex-melhor amigo – precisaria ter vivido alguns dias tão bons que pudessem ser lembrados na solidão de um cárcere fictício ou real.

Tenho vários desses dias guardados.

O dia em que, no meio de uma viagem de carro, um amigo e eu vimos uma cachoeira, entramos sem pensar na água gelada e secamos ao sol.

O dia em que fui com meus filhos à rua João Cachoeira. Com cinco anos de idade, eles se deliciaram com o passeio na rua cheia de gente às vésperas de uma copa do mundo. Fomos procurar camisetas com cores do Brasil na Hering quando eles viram uma loja de tapetes, entraram correndo e pularam em cima das pilhas fofinhas. O vendedor achou graça e deixou-os brincar. Fomos depois a uma barbearia e, juntos, cortamos o cabelo sentados lado a lado, eles em cima daquela madeirinha que o pessoal coloca para aumentar a altura do freguês, olhando-nos rindo pelo espelho. Comemos um brigadeiro numa mesa na calçada de uma doceria que está lá até hoje. Tenho certeza de que conseguiria, no meu catre na prisão, lembrar do barulho da rua, do gosto do brigadeiro e do sorriso da menina e do menino naquele espelho de barbearia.

O dia em que tive certeza de estar completamente apaixonado – e correspondido.

O dia em que, depois do tradicional jogo de futebol com os vizinhos da rua Selma, uma ruazinha sem saída, no bairro do Campo Belo, fomos todas as crianças ao bar e, numa ousadia rara e cara, dividimos uma tubaína cor de laranja, gasosa, gelada, deliciosa.

O dia de sábado no jardim da casa de meus pais, eles em cadeiras vermelhas, olhando os quatro filhos brincando. Lembraria de uma flor pontuda, também vermelha que crescia no canteiro ao lado, e das duas tartarugas de nomes divertidos, Barbarella e Vingador do Espaço, apostando corrida em direção aos vermelhíssimos tomates que colocávamos na linha de chegada.

O dia em que, já adulto, fui a pé até o Tatuapé, saindo de Pinheiros, numa das tantas caminhadas que fiz pelo simples prazer de andar pela cidade até onde agüentasse. Extenuado, sentei num banco de praça, tomei uma cerveja e descobri um posto avançado do Jockey Clube. Joguei cinco reais no cavalo numero cinco no quinto páreo. E não ganhei.

Espero poder me lembrar desses dias todos na minha prisão.

Espero mesmo é não precisar estar preso, mas a gente nunca sabe o que pode acontecer. Dou-me conta de que talvez a prisão não seja uma prisão física, pode ser uma cama de hospital ou até mesmo uma dificuldade de locomoção temporária.

Seja como for, percebo que, em vez de se transformar numa obsessão medrosa, a fixação com as prisões na verdade me ajudou a viver os dias com mais intensidade, mesmo que nunca tenha que me lembrar deles numa hipotética cela no futuro.

2 comentários sobre “Preciso me lembrar desse dia quando estiver preso”

  1. Mauro, você é um contista talentoso. Suas experiências mais pessoais ganham forma narrativa com simplicidade e profundidade.
    Me juntando à você pensei em Casanova em Veneza.
    Parabéns!

  2. Mauro, é interessante revisitar reflexões, ver como nós mudamos ou o mundo mudou. Moral da história: nada como registrar reflexões, dividir com os outros, e ver como, neste caso, tanto você quanto o mundo mudaram, mas emprestaram novo sentido ao texto, e como o texto pode perder sentido…Este período seria apenas muito interessante, se não fosse também, e principalmente trágico

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