Quino e a urbanidade de Buenos Aires nas histórias de Mafalda

A estátua de Mafalda em San Telmo. Foto: Mente Argentina

 

 

A morte de Quino na semana passada trouxe  uma pequena avalanche de lembranças nas redes sociais. São pessoas, como eu, que tomaram contato com suas historinhas e cartuns a em algum momento no passado e que prantearam juntas a perda de um símbolo de um período de nossas vidas.

 

As histórias de Mafalda, seu personagem mais marcante, trazem o cotidiano de uma menina de classe média numa cidade argentina. O que as torna especiais é o olhar filosófico para os pequenos gestos e as reflexões transcendentais sobre cenas aparentemente banais. No mundo de Mafalda, além da família, da escola e dos amiguinhos Susanita, Felipe e Manolito, há um personagem especial nas histórias: a rua.

 

 

Explícita ou implicitamente, a rua está sempre presente. A casa é o ponto central das conversas com os pais, mas é a rua que estimula as maiores reflexões da menina que começa a descobrir o mundo.

 

Em um quadrinho, Mafalda pede à mãe para ir brincar fora de casa. A mãe a princípio nega. Mafalda então começa a assistir TV e a repetir de propósito as propagandas que viu. A mãe desiste e lá se vai Mafalda feliz para a rua, pular corda.

 

A mensagem é direta: a casa e o mundo virtual (naquela época a TV e o rádio), para Quino, simplesmente não dão conta da necessidade e o prazer de estar na rua, de ver gente ou de pular corda na praça.

 

Diversidade na rua

 

 

A cidade é o lugar onde Mafalda encontra pessoas diferentes dela mesma. São adultos, jovens, outras crianças, famílias. Eles falam coisas inesperadas que a fazem pensar. A cada interação, um aprendizado.

 

 

Nessa historinha, Mafalda e Felipe estão sentados na soleira da porta. A casa não tem muros. A porta dá direto para a calçada, por onde passam pessoas e pensamentos estranhos. Eles vivenciam a diversidade e comprovam na prática, o que o sociólogo Richard Sennett destacou como a característica mais importante da cidade: a mistura de pessoas diferentes: “Cidade é um assentamento onde estranhos se encontram cotidianamente”. Ele vai além: nós desenvolvemos nossa própria identidade nesse jogo de trocas com as outras pessoas. E isso acontece com Mafalda, nas ruas da cidade.

 

 

Talvez seja justamente esse encontro com os estranhos o que torna Mafalda a quase-filósofa que os argentinos valorizam tanto. Será que ela seria o que é se passasse o dia em casa assistindo TV, ou andando por um condomínio fechado? É vendo ouvindo a conversa entre duas mulheres que ela pensa na futilidade. É passando em frente a uma funerária que ela pensa na morte.

 

 

 A rua em Buenos Aires

 

Quino, aliás Joaquín Salvador Lavado Tejón, nasceu em Mendoza, mas mudou-se para Buenos Aires em 1950, um cenário muito especial da vida urbana na América do Sul. No início do século XX, a Argentina tinha renda per capita acima de Alemanha e França. Na década de 1950, o auge do poderio econômico já tinha passado, mas a pujança da paisagem urbana da capital perdurava.

 

O traçado em tabuleiro das ruas, calçadas generosas, a planura da cidade, parques, segurança e cafés, tudo contribuía para a urbanidade nas ruas. E hoje? Perguntei para algumas pessoas que vivem ou viveram na cidade, que parecem confirmar: a vida de Buenos Aires mudou da época de Mafalda para os dias de hoje, mas ainda passa pela rua.

 

Eduardo Gonzalez, um amigo argentino que me sugeriu esse tema, lembra que a vida das crianças nos bairros de Buenos Aires sempre aconteceu nas ruas, cotidianamente ou nos grandes eventos, das fogueiras de São Pedro e São Paulo às murgas (uma espécie de bloco) de Carnaval. Nesses anos todos,  a cidade viu um crescimento grande na frota de automóveis, que piora um pouco a experiência urbana e se soma ao aumento de insegurança.

 

Quino viveu em San Telmo, que nem é um bairro central e nem tem uma infraestrutura tão generosa como outros bairros mais ricos, como Palermo ou Recoleta, mas sempre teve vitalidade urbana, casas históricas preservadas e ganhou uma retomada no início dos anos 1970 com a famosa feira de antiguidades.

 

Elisa Calfat, arquiteta brasileira que mora em Buenos Aires destaca a qualidade do espaço público. Num pequeno passeio virtual pelo bairro de Almagro, em um workshop que eu conduzi na Escola da Cidade, ela mostrou claramente como calçadas largas, praças bem cuidadas e fachadas integradas na cidade podem ajudar na urbanidade.

 

Parque em Almagro. Foto: Elisa Calfat

 

Para Andrés Bruzzone, jornalista argentino que mora no Brasil, Buenos Aires é uma cidade de muitos espaços públicos, de uso das praças e dos parques, onde a vida de bairro ainda acontece e muitas crianças vão sozinhas para a escola. Para ele, cenas como as de Mafalda andando a pé junto com outras crianças, ainda ocorrem bastante.

 

É possível ver na prática alguns elementos das ruas das tirinhas de Mafalda. Como o papel do comércio, que tem um papel anedótico nas histórias de Mafalda. O Almacén Don Manolo, de propriedade do pai do personagem Manolito, pratica preços exorbitantes e vende produtos vencidos. Mas, ao mesmo tempo, ele se abre para a calçada e reforça o papel das lojinhas de garantir a vitalidade nas ruas nas múltiplas centralidades dos bairros. Como nessa foto de um armazém atual em Buenos Aires:

 

Mercearia em esquina de Buenos Aires. Foto: Elisa Calfat

 

Mafalda hoje

 

É surpreendente constatar que as tirinhas de Mafalda não tenham durado muito. Quino começou a publicá-las em 1964 e parou em 1973, temendo pela reação da ditadura argentina às historinhas, como confessou numa entrevista posterior.

 

Mesmo assim, a imagem da menina cabeluda e questionadora se espalhou pelo mundo, como uma espécie de reserva moral, filosófica, pacifista e globalista. É tão atual que assusta. O que mudou é a configuração da cidade, principalmente das nossas metrópoles, o que pode estar sendo exacerbado ainda mais pela pandemia.

 

Será que as crianças que crescem nas nossas cidades atuais vão encontrar nas ruas a segurança mínima para suas brincadeiras? Será que elas vão conviver com a diversidade necessária para inspirar seus questionamentos futuros? Será que elas vão ter a vontade de se perguntar por que vivemos, por que somos do jeito que somos, por que alguns são diferentes de outros? E, lembrando de um dos temas mais caros à Mafalda: quem vai perguntar para onde está indo o mundo?

 

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