Será que a nossa reserva de civilidade não está nos pequenos gestos cotidianos?

Intervenção do Instituto Gustavo Rosa transforma as calçadas do Jardim Paulista. Foto: M.Calliari

Hoje de manhã, no metrô, o rapaz de uns vinte e tantos anos levantou-se  e me ofereceu o lugar.

Confesso que a primeira sensação foi de surpresa – aos 57, nunca tinha acontecido de alguém me oferecer o lugar antes – e até de repulsa diante do fato inexorável que todos nós estamos ficando mais velhos a cada dia. Mas, depois, acabei me conformando diante da reconfortante perspectiva do assento vago, agradeci e aproveitei a viagem.

Em meio a tantas notícias estranhas vindas de todas as partes, a gentileza me fez pensar no poder dos pequenos atos cotidianos.

Dou-me conta de que há muito mais urbanidade no cotidiano do que parece. Na cidade árida, muitas vezes ameaçadora, é um alento tropeçar nesses pequenos gestos.

Há pessoas que cuidam de praças, outras que varrem as calçadas com cuidado e ainda os que dedicam seu tempo para melhorar a cidade.

Homem varre a frente de uma loja na rua Guaicuí, Pinheiros. Foto: M.Calliari

Porém, há aqueles que simplesmente fazem algo bem feito – uma barraca de pastel bem cuidada, uma loja que instala um banco na rua, uma construtora que abre o térreo do seu prédio comercial para a fruição dos pedestres, um motorista de ônibus que dirige calmamente, um bar que põe a mesa na calçada mas respeita o espaço do pedestre e o silêncio dos moradores do entorno …

A possível convivência de pessoas diferentes no mesmo espaço. Foto: M.Calliari

Em meio à violência institucional talvez sejam esses pequenos gestos os verdadeiros indutores da urbanidade.

Será que, em meio às notícias desencontradas, gestos tresloucados e decisões controversas nos últimos tempos, os pequenos atos não são uma garantia de que partilhamos de algo maior?

Será que essa reserva de civilidade existe de fato, como uma cola que poderia garantir que não nos esfacelemos em milhões de caquinhos dispersos?

Placa na Vila Romana acena com novas possibilidades de convivência nas ruas. Foto: M.Calliari

Não, os pequenos gestos do dia-a-dia não são uma demonstração da nossa coesão social — pois ela talvez não exista — mas mostram um caminho possível para a grande cidade ensandecida (e até para o país ensandecido): a possibilidade de desconhecidos conviverem civilizadamente nas calçadas, nos transportes, em eventos, nos espaços públicos e experimentar algo que não seja repugnância ou medo pelo outro.

 

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