Tudo o que eu nunca soube sobre o Amapá

 

Leio e vejo, constrangido, as notícias sobre a penosa e longuíssima falta de luz no Estado do Amapá. Diante das imagens da comida estragando e das pessoas nas ruas protestando, me dou conta de que não sei nada, absolutamente nada sobre o Amapá. E aliás, pior ainda, nunca conheci ninguém que tenha nascido ali.

 

Procuro sinais de traços conhecidos nas fotos. Como serão as ruas de Macapá? Como será o som da fala dos quase 800 mil brasileiros que moram por lá?

 

Decido dar uma pesquisada. Para começar, uma decepção: a única coisa que eu sabia sobre o Amapá não funciona mais. A expressão para designar os dois pontos extremos do Brasil – “do Oiapoque ao Chuí” – está sendo abandonada depois que descobriram que o ponto mais setentrional do Brasil fica, na verdade no Monte Caburaí em Roraima e não no Oiapoque, cidade do Amapá.

 

Sigo em frente. O Estado parece pequeno, diante de seu vizinho gigante, o Pará, mas na verdade, é maior que Pernambuco ou Santa Catarina, ou ainda que a Coréia do Sul, que tem uma população 60 vezes maior e que é uma das maiores economias do mundo.  A baixa densidade se explica: a floresta e os rios ocupam um pedaço grande do território, que tem incríveis 72% da área total em unidades de conservação, o percentual mais alto entre todos os estados brasileiros.

 

Todo esse território não veio sem briga, constato. Na verdade, esse pedaço do continente foi disputado desde o descobrimento, ou na verdade, até antes dele, segundo o historiador Eduardo Bueno pois o espanhol Vicente Yáñez Pinzón comprovadamente explorou o Rio Amazonas até antes de Cabral aparecer.

 

Depois, os portugueses entraram em disputas com os indígenas, com espanhóis e franceses (cada um ficou com um lado das margens do rio Oiapoque, que separa a Guiana Francesa do Amapá, que já foi inclusive chamado de Guiana Portuguesa). Virou um território em 1943 e Estado apenas em 1991.

 

A área é tão estratégica que foi construído ali o maior forte da América do Sul – a Fortaleza de São José, em Macapá. O forte é lindo e imponente, com suas paredes de 8 metros de altura, mas nunca precisou ser usado em seus 240 anos de vida.

 

Procuro informações sobre as cidades e me dou conta de que só há 16 delas no estado. Algumas, porém, têm histórias incríveis.

 

Mazagão, por exemplo, é uma cidade que foi criada para substituir uma outra que existia … no Marrocos. A história, contada, por Antonio Risério, no livro A Cidade no Brasil dá conta de que em 1769, a coroa portuguesa decidiu evacuar os portugueses da cidade de Mazagão, em El Jadida, no litoral atlântico do Marrocos, cercada pelos mouros e berberes. Compulsoriamente, 1500 pessoas foram levadas a Lisboa e depois para a região amazônica, onde foram acomodados numa cidade  planejada de ruas em quadrícula com o mesmo nome. Nas próximas décadas, construíram a terceira Mazagão, ali perto e mudaram-se para lá. Numa prova de que as heranças culturais duram mais que as cidades, os habitantes comemoram até hoje o dia de Santiago, em que se recria o confronto entre os cristãos e os mouros, na África de mais de duzentos e cinquenta anos atrás!

 

Outras cidades têm a ver com as tentativas de ocupação econômica do território: uma megalomaníaca e outra mais modesta.

 

Jari foi um projeto da década de 1967, concebido pelo bilionário americano Daniel Keith Ludwig, para a produção de celulose. O negócio ficou famoso no mundo todo pelos números extravagantes. Para começar, o território comprado pelo empreendedor era tão grande que deu a ele o título de ‘o maior proprietário de terras do ocidente’. De fato, a propriedade era maior do que o estado de Sergipe, por exemplo. A extravagância não terminava aí: a fábrica e a usina termoelétrica foram construídas no Japão e trazidas em gigantescas plataformas flutuantes. O plano deu espetacularmente errado e as instalações foram vendidas. Hoje, pertencem ao grupo Orsa e estão dentro do município de Laranjal do Jari, que tem mais de 40 mil habitantes.

 

Já a Vila Serra do Navio começou como um assentamento construído para abrigar os trabalhadores da mineradora de manganês Icomi e hoje é uma simpática cidadezinha de 5 mil pessoas, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e imersa no verde. A arquiteta Silvia Chile, que escreveu uma dissertação sobre o lugar no mestrado, diz que o projeto urbano modernista de Oswaldo Bratke é “maravilhoso”: “Ele se preocupou com a sustentabilidade no projeto inteiro, desde a estação de tratamento que devolve água limpa ao rio depois de usada até a capacitação dos trabalhadores locais passando pela ventilação natural nas casas”.

 

Outra boa história é a do estádio de futebol Milton de Souza Corrêa, em Macapá, que é famoso por um fato inusitado: o estádio foi construído para fazer coincidir a linha do meio de campo com a linha do Equador. Um time que joga o primeiro tempo no hemisfério norte tem que migrar para o hemisfério sul no segundo. Na prática, a posição geográfica foi recalculada e o Equador não passa exatamente na linha do meio-campo, mas esse é um dos casos onde, parafraseando Nelson Rodrigues, se a versão é melhor que a realidade, pior para a realidade.

 

São coisas do Brasil, coisas do Amapá, esse estado que, para mim, era quase uma abstração mas que galvaniza nossa torcida pela volta da eletricidade. Que eles possam voltar logo à normalidade, reestabelecer suas vidas cotidianas e realizar a eleição para seus prefeitos.

 

Quem sabe um dia, terei o prazer de conhecer alguns simpáticos amapaenses, quando  brindaremos com gengibirra – cachaça, gengibre, água e açúcar – o fato de falarmos a mesma língua e termos, no fundo no fundo, algo em comum.

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