Um ano do Parque do Jockey, o clube privado que virou espaço público

Um terreno privado que virou público.

Numa época em que se discute a privatização de locais públicos, o Parque Chácara do Jockey, no Butantã, é um exemplo de uma ação oposta. Ele foi desapropriado pela prefeitura em 2014, como parte do pagamento da dívida gigantesca de IPTU do Jockey Clube de São Paulo, após pressão de grupos de moradores e apoiadores do parque. Passou por uma reforma e foi inaugurado em abril de 2016.

Em meio aos 109 parques de São Paulo, o parque do Jockey merece atenção.

Em primeiro lugar, ele é enorme. Seus mais de 140 mil metros quadrados o tornam muito maior que o Parque da Aclimação, por exemplo, outro parque que também foi comprado pela prefeitura, no longínquo ano de 1939.

Em segundo lugar, ele é um oásis. Para o responsável pelo parque, Leandro Marques Bondar, a chácara do Jockey é “o Ibirapuera da Zona Oeste”.

De fato, ao lado da poluída e movimentada av. Francisco Morato, o lugar tem campos de futebol, pista de skate, muitas árvores, lugar para ler com calma e até um surpreendente e inesperado lago. Um homem que eu encontrei numa visita jura que há carpas por ali, “basta jogar uma comidinha que elas aparecem”.

Há um improvável ar bucólico no parque, talvez pelas muitas ruas de terra, talvez por não ter um projeto paisagístico modernoso, ou talvez até pelas construções de tijolo muito bonitas que o Jockey construiu, em seus tempos áureos. Reformados, os estábulos estão virando laboratórios.

Finalmente, vale a pena pensar no parque como uma área que era privada e que, por uma razão ou outra, abriu-se à cidade. Antes da despropriação, os vizinhos apenas sonhavam com o que estava atrás dos muros. A Secretaria do Verde diz que cada parque traz ganho ambiental grande, “além de trazer qualidade de vida para o cidadão com a criação de mais áreas de lazer em toda a cidade”. A região do entorno não é muito densa em moradias, mas mesmo assim, o parque recebe em média mil pessoas durante a semana e seis mil pessoas nos finais de semana e feriados,  principalmente do Butantã, Campo Limpo e Taboão da Serra. Paulo, um morador da região que anda todos os dias no parque faz coro: “ O parque é arborizado, seguro, e dá para vir a pé”.

Talvez esse caso possa ser usado como elemento para a discussão sobre a conveniência e os critérios para transformar áreas privadas em públicas ou vice-versa. Em vez de pagar pelo terreno, a prefeitura desapropriou o bem por falta de pagamento do proprietário. A contrapartida é que agora precisa manter o parque funcionando, o que parece um investimento minúsculo para o bem que a nova área traz à cidade.

O lugar, a cargo da Secretaria do Verde, ainda precisa de investimentos, além dos custeio anual de pouco mais de R$ 2 milhões. Falta uma lanchonete, algumas reformas e um projeto que integre as áreas, muito afastadas entre si. Leandro avalia que o lugar tem muito potencial para crescer e ser um pólo de cultura. De fato, há um grande pedaço das antigas cavalariças que está em projeto para ser gerido pela secretaria de Cultura. O conselho do parque, que toma posse hoje, pode ajudar a pensar nas prioridades. Há até um grupo de frequentadores que troca idéias sobre o parque nas redes sociais – https://www.facebook.com/movimentoparquechacaradojoquei/.

Vale a pena conhecer esse lugar. Ele é o exemplo de que problemas diferentes exigem estratégias diferentes. No lugar de um clube fechado, ganhamos uma simpática área pública, com potencial para se transformar, com tempo, dedicação e recursos, numa lugar especial.

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