Uma conversa com Jaime Lerner, o urbanista que ama a rua e cria cidades boas de viver

Jaime Lerner e Mauro Calliari, setembro de 2016. Foto Arq. Futuro.

Tive o prazer de moderar uma conversa com Jaime Lerner na semana passada, por ocasião do lançamento de um documentário sobre sua vida e obra.

Depois do evento, pessoas da platéia subiram ao palco, tiraram selfies, pediram autógrafo, ansiosas por uma palavra e uma atenção, repetindo o que audiências fazem pelo mundo afora. Deu para entender o porquê desse frisson todo.

Ele conhece o mundo todo mas lembra com carinho a rua de sua infância.

Trafega pelo estratégico e pelo tático (e o tátil também). Lembra com detalhes a solução que um motorista sugeriu para organizar a parada na “estação-tubo”, um dos símbolos das reformas de Curitiba.

Elogia a diversidade mas não se deslumbra pelas palavras de ordem. Para ele, o uso misto é qualidade de vida.

Sua solução de mobilidade urbana através dos ônibus em faixas exclusivas foi exportada para todo o mundo e tem gente que sai encantada com o que vê em Bogotá, sem saber que o modelo veio de Curitiba.

Acredita na simplicidade, mas não abre mão da qualidade da execução. Nem da velocidade de execução. A obra tem que ser boa e tem que ser rápida.

O modelo de expansão urbana acompanhando as linhas de transporte tem inspirado outros pelo mundo, inclusive no novo Plano Diretor de São Paulo.

Transformou um conceito – a acupuntura urbana – em um poderoso modelo de transformação urbana.

Ele entende o valor do carro, mas advoga que a cidade boa é aquela que dá mais valor ao transporte público. E sustenta que o uso indiscriminado do carro está com os dias contados. A rua XV, em Curitiba, uma das primeiras, senão a primeira rua de pedestres do Brasil ainda hoje é um exemplo de vitalidade urbana.

Participou da concepção do IPPUC, um órgão que sobreviveu a inúmeras gestões municipais, com foco no ordenamento técnico da cidade.

Ah, ele também é um andarilho! Está apenas esperando melhorar um pouco da perna para poder voltar a caminhar pelas cidades que visita.

Talvez haja coisas que tenham mudado desde a época em que foi prefeito de Curitiba (3 vezes) e governador do Paraná (2 vezes), mas o encantamento com a vida urbana e a rua são inspirações poderosas para os arquitetos-urbanistas-engenheiros-gestores-candidatos de hoje.

A “produção de cidades” não pode ser um ato mecânico. Sem paixão, as cidades são ruas, prédios e concreto. Com paixão, talvez abriguem vidas interessantes e plenas.

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