Virginia Woolf e a fruição da cidade. Será possível que, na São Paulo do século XXI, as mulheres ainda não possam caminhar despreocupadas?

O fascínio pela cidade é tema recorrente entre os escritores homens. Desde Baudelaire a João do Rio, o flâneur é alguém que sai pela cidade em busca de si mesmo, no nascente mundo da burguesia urbana. Mas e as mulheres? Poucas são as escritoras que enfrentaram o ambiente masculino das grandes cidades.

No início do século XX, porém, Londres já é um lugar que permite à mulher sair pela cidade sozinha. Virginia Woolf foi uma delas. Em seu livro Mrs. Dalloway, de 1925, a delícia de estar no espaço público é descrita lindamente pela personagem Clarissa Dalloway, em seu passeio matinal pelo centro de Londres em direção à loja de flores:

“Nos olhos das pessoas, no bulício, na pressa ou lentidão dos transeuntes; na algazarra e no fragor; carruagens, automóveis, autocarros, caminhões, homens-sanduíche aos tropeções ou de passo arrastado; realejo e fanfarras; no triunfo, no tinido ou na estranha melodia de um aeroplano lá no alto, estava aquilo que ela amava: Londres, a vida, este momento de junho.”

Afinal, o que há no espaço público que o torna tão especial? Clarissa começa a se sentir bem a partir do momento em que abre a porta da rua, sai de casa e respira o ar fresco da manhã. E depois, não é o bucolismo ou o verde ou o silêncio que a entretém. É o barulho da cidade, o movimento, pessoas diferentes que passam em ritmos diferentes. Assim, a fruição individual é vivida no ambiente coletivo.

Vale a pena ler o livro para ver onde vai terminar o passeio de Clarissa. Mas também para sentir os ares da cidade burguesa, onde uma mulher pode sentir o prazer de estar sozinha em um ambiente coletivo.

Essas lembranças fazem a gente pensar nas mulheres que andam pela cidade hoje. São Paulo não é Londres, apesar da Oscar Freire talvez se parecer mais com a Bond Street do que com qualquer outra rua daqui.

Como é ser mulher e andar na Líbero Badaró, na avenida Sapopemba, na rua Francisco Coimbra, na Penha ou na rua B, num loteamento bem no extremo norte da cidade, a vinte e cinco quilômetros do centro?

Será que na São Paulo do século XXI, as mulheres que saem às ruas podem sentir o prazer de andar pela cidade, sem violência ou assédio?

Será que uma mulher que pode andar de carro vai optar por sair  a pé para poder “sentir a cidade”?

Será que no passeio obrigatório entre o ponto de ônibus e a casa, as mulheres vão andar por calçadas bem cuidadas, sombreadas, iluminadas, seguras e entreter-se com o movimento da cidade sem serem importunadas?

Será que as nossas flaneuses podem se dar ao luxo de se perder na multidão para ficarem imersas em seus pensamentos?

Essa é a literatura que precisa ser escrita.

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